Alvo de inquéritos do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, o Instituto Conhecer Brasil apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em documentações fiscais e recibos eivados de irregularidades à gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A organização da sociedade civil é responsável por um contrato de R$ 108 milhões com a administração municipal para a expansão da rede de wi-fi gratuito em regiões periféricas da capital paulista.
A entidade é gerida pela jornalista e empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment — produtora responsável pela cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Auditoria realizada nas prestações de contas da organização aponta o uso de notas fiscais milionárias emitidas e canceladas no próprio sistema da Prefeitura, além de faturas desprovidas de valor fiscal para justificar despesas de até R$ 4,3 milhões por lote de cobrança.
Entre os episódios sob suspeita, a ONG justificou o gasto de R$ 8,5 milhões com a empresa Make One Tecnologia Digital Ltda., em 2024, utilizando faturas comerciais em vez de notas fiscais eletrônicas, o que omitiu o recolhimento de tributos municipais. Os documentos apresentavam numeração sequencial e datas idênticas de emissão.
Em outra frente, a organização incluiu em seus balanços uma nota fiscal de R$ 2 milhões emitida pela Complexsys Soluções Integradas Ltda., cujo proprietário, André Feldman, mantém proximidade com Karina da Gama. Embora os registros oficiais apontem que o documento foi cancelado no mesmo dia de sua emissão, em novembro de 2025, a nota foi submetida à Prefeitura em fevereiro de 2026.
A Complexsys também presta serviços ao gabinete do deputado federal Mário Frias (PL), produtor-executivo do longa-metragem sobre Bolsonaro.
Autofaturamento e emendas sob suspeita
O escopo das investigações também abrange transações de “autofaturamento”, nas quais o Instituto Conhecer Brasil emitiu ao menos três notas fiscais para si próprio, totalizando R$ 1,4 milhão. Um parecer técnico da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), datado de 26 de fevereiro de 2026, classificou a prática como “indevida” e apontou duplicidade de pagamentos na ordem de R$ 925 mil.
“A permanência de valores expressivos pendentes de devolução caracteriza irregularidade grave na execução financeira da parceria”, apontaram os diretores da pasta no relatório técnico.
Apesar do alerta de irregularidade grave feito pela área técnica, a cúpula da SMIT optou por aprovar as contas da entidade com ressalvas, condicionando a continuidade do certame à devolução de R$ 930 mil — montante que, segundo o município, já foi restituído pela ONG, resultando na renovação do contrato para a instalação de 1.800 pontos remanescentes de internet.
As conexões políticas da entidade estendem-se à esfera federal. O deputado Mário Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, transação que é objeto de apuração no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposta opacidade no rastreio dos fundos. Em 2022, Karina Gama atuou como consultora de campanha do parlamentar, recebendo R$ 54 mil por meio da GO7 Assessoria — empresa que compartilha a mesma sala comercial da ONG na Avenida Paulista.
Execução de serviços e subcontratações
Os problemas de conformidade também alcançam os subcontratados da parceria. A ONG firmou um contrato de R$ 12 milhões com a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., cujo fundador, Alex Leandro Bispo dos Santos, foi preso preventivamente sob a acusação de feminicídio. Na primeira versão do contrato, o empresário constava apenas como “Alex”, sem sobrenomes ou documentos de identificação. A firma, que foi responsável por instalar 900 pontos de acesso e recebeu R$ 2 milhões da municipalidade, teve o controle societário transferido posteriormente para uma moradora do mesmo endereço do acusado.
Outro Lado
Em manifestação à imprensa, Karina Ferreira da Gama afirmou desconhecer as anulações de notas por parte de fornecedores e alegou que os apontamentos de duplicidade foram reportados voluntariamente por ela à municipalidade. A empresária confirmou o vínculo pretérito com Mário Frias na campanha de 2022 e ressaltou que as emendas federais enviadas pelo deputado foram integralmente aplicadas em projetos sociais de âmbito esportivo no interior do Estado de São Paulo, sem qualquer desvio corporativo. Ela declarou ainda desconhecer irregularidades no contrato com a Favela Conectada, sugerindo manipulação de documentos por adversários pessoais.
A empresa Complexsys declarou, em nota, que acompanha o andamento das investigações com serenidade e destacou sua condição de mera prestadora de serviços técnicos, defendendo o princípio da presunção de inocência e o devido processo legal. A firma JR Feijão Ltda., que teve R$ 406 mil em notas canceladas identificadas no processo, não foi localizada para comentar.
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, rechaçou as suspeitas de irregularidades estruturais e defendeu o rigor na fiscalização do programa. A pasta argumentou que as ressalvas são praxe administrativa e que o instituto cumpre os requisitos de capilaridade territorial necessários para as instalações. A gestão Ricardo Nunes informou ainda que a produção do filme sobre Jair Bolsonaro não guarda correlação temporal ou financeira com o contrato de conectividade, repudiando o que classificou como tentativas de descredibilizar a política pública, que contabiliza 3.200 pontos ativos na capital.





