Gudryan Neufert


Gudryan Neufert*

Houve um tempo em que era comum perguntar a qualquer torcedor, especialmente aos mais jovens e àqueles de fora do eixo Rio-São Paulo: “Para qual time você torce em determinado estado?”. E a resposta vinha sem hesitação: “No Rio Grande do Sul, sou Inter; em São Paulo, Palmeiras; no Rio, Botafogo; em Minas, Cruzeiro…”, e assim por diante. Hoje, essa prática parece ter se perdido. Os grandes clubes se tornaram verdadeiramente nacionais, enquanto os times locais ficaram restritos às suas regiões. As diferenças de orçamento, endividamento e movimentação financeira se tornaram brutais, consolidando uma hierarquia quase intransponível.

Mas, quando os campeonatos estaduais chegam à reta final, a nostalgia reaparece. Uma nostalgia que se renova a cada ano.

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Como escreveu o moçambicano Mia Couto, no livro O Universo num Grão de Areia:
“Nada é tão novo e recente quanto o passado. O tempo — ou melhor, a memória que dele ficou — é uma escolha permanentemente reconstruída, uma página em permanente revisão.”

Torcer para times de outros estados não era apenas uma escolha afetiva, mas também uma forma de demonstrar conhecimento sobre futebol. Até o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando a revista Placar ainda era semanal e o Campeonato Brasileiro chegou a ter mais de 80 clubes, muitos torcedores acompanhavam diversas equipes pelo país. “Ah, no Ceará eu torço para o Ferroviário… No Mato Grosso, sou Operário…”, diziam.

João Saldanha, meu grande mestre à distância no jornalismo esportivo, era gremista no estado natal, torcia pelo Atlético Paranaense em Curitiba, onde viveu a adolescência, e era botafoguense fanático no Rio, onde fez sua vida.

Na minha infância, bastava esperar os gols do Fantástico para saber se aquele time com o qual simpatizava havia conquistado o título estadual. Eu chegava até a contabilizar quantos estaduais meus times de simpatia haviam vencido na temporada. Lembro, por exemplo, de um ano em que o Vila Nova foi campeão goiano, e, somando tudo, os clubes que eu acompanhava levantaram seis troféus estaduais. Só não me recordo exatamente qual foi a temporada.

O que lembro bem é que era um tempo em que as finais do Campeonato Paulista aconteciam, sem discussão, no Morumbi, e as do Carioca, no Maracanã.

Esses dois estádios, aliás, alimentavam outro debate interminável: qual era maior e qual tinha o público mais apaixonado. “O Morumbi é privado, do São Paulo, e comporta 120 mil torcedores!”, argumentavam uns. “O Maracanã é público, não é de time nenhum e cabem 180 mil!”, retrucavam outros.

A disputa pelo maior público também era um clássico à parte. “A final do Gauchão teve mais torcedores que a decisão em Belo Horizonte…”, diziam, como se fosse um título.

O futebol ainda não era tão violento fora dos estádios nem tão elitizado dentro deles, o que permitia debates acalorados, mas saudáveis. Os estaduais duravam um semestre inteiro, geralmente ocupando a segunda metade do ano — algo impensável hoje.

Muitos defendem o fim dos campeonatos regionais. Não sabem o prazer que é ver — como neste fim de semana — o Ceará ultrapassar o Fortaleza em títulos estaduais (47 a 46) ou saber que o Avaí bateu a Chapecoense numa final polêmica e se tornou o maior campeão catarinense, com 19 troféus, superando o Figueirense, que tem 18. O prazer dos números, da rivalidade, da disputa histórica que mantém o futebol vivo nos rincões do país.

No Campeonato Paulista, a história recente também tem sido recheada de reviravoltas. O Corinthians, com um holandês titular da Laranja Mecânica em seu elenco, pode impedir o Palmeiras de conquistar um tetracampeonato inédito — assim como o próprio Palmeiras já havia evitado o tetra do Corinthians anos antes.

É nos estaduais que novas forças regionais começam a surgir. O Retrô, em Pernambuco, o Maringá e o Operário, no Paraná, são exemplos de clubes que podem, no futuro, conquistar simpatizantes pelo país. E a simpatia por times muda com o tempo.

Eu mesmo, quando mais novo, simpatizava com o Internacional. Hoje, sou gremista no Campeonato Gaúcho. Acho a camisa do Grêmio uma das três mais bonitas do futebol nacional, e a construção da Arena no meio de uma enorme comunidade em Porto Alegre ajudou a popularizar ainda mais o clube. Na Bahia, também sou tricolor que acaba de conquistar mais um estadual, o 51º da sua história. Sou Bahia lá porque nunca torci por times rubro-negros — nem mesmo em Milão, onde simpatizo mais com a Internazionale.

Cada torcedor cria seus próprios paradigmas, que podem ser quebrados ou reforçados nesta época do ano, antes do início do Brasileirão. Porque, quando o Campeonato Brasileiro começa, não há mais espaço para simpatias: você é o time que escolheu de verdade. No meu caso… melhor não falar.

*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).