O uso do Mounjaro em crianças e adolescente só com prescrição médica. (Foto: Reprodução)


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a ampliação do uso da tirzepatida, medicamento comercializado como Mounjaro, para o tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos. A decisão marca um passo inédito no Brasil e insere o país no grupo de nações que já haviam liberado a terapia para o público pediátrico, como Estados Unidos e Europa.

A medida chega em um momento crítico: o avanço da obesidade infantil e do diabetes precoce. Estimativas da Sociedade Brasileira de Diabetes apontam que cerca de 200 mil jovens brasileiros convivem com a doença. “É bastante coisa, e vem aumentando muito mais. É uma doença mais grave nas crianças, por isso a importância do tratamento”, afirma a endocrinologista pediátrica Ana Luiza Lelot, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo.

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Epidemia em curso

O Atlas Mundial da Obesidade 2026 revela que 16,5 milhões de brasileiros entre 5 e 19 anos estão acima do peso. Hoje, uma em cada três crianças e adolescentes já apresenta excesso de peso, e a projeção é que esse número chegue a 50% até 2035. “A obesidade eleva em 60% o risco de desenvolver diabetes tipo 2. A maioria dos pacientes já tem excesso de peso”, alerta Lelot.

Como funciona o medicamento

A tirzepatida combina dois mecanismos em um só tratamento, estimulando receptores de incretinas — hormônios intestinais que regulam glicose e apetite. O resultado é um controle mais eficiente da glicemia e redução de peso, fator crucial no diabetes tipo 2.

Um estudo internacional publicado na revista The Lancet mostrou que adolescentes tratados com tirzepatida tiveram queda significativa nos níveis de glicose e no índice de massa corporal.

Indicação restrita

Apesar dos resultados promissores, especialistas reforçam que o medicamento não deve ser usado de forma indiscriminada. “A criança precisa preencher critérios, tem que de fato ter diabetes. O uso indiscriminado é algo que já vemos entre adultos e não deve se refletir na adolescência”, afirma a endocrinologista pediátrica Hana Moniz, do Hospital Vitória, no Rio de Janeiro.

Segundo Lorena Lima Amato, endocrinologista da USP, o diabetes tipo 2 costuma surgir na puberdade, quando fatores hormonais se somam ao excesso de peso e à predisposição genética. “Nesses casos, o tratamento medicamentoso pode ajudar no controle da glicemia e na prevenção de complicações precoces”, explica.

Não é bala de prata

Médicos reforçam que a tirzepatida não substitui mudanças de estilo de vida. “Não é cura e não substitui acompanhamento nutricional, atividade física e mudanças no estilo de vida”, afirma Amato. Moniz concorda: “É um medicamento potente, mas não deve ser usado de forma indiscriminada”.

Os efeitos adversos mais comuns incluem náuseas, diarreia e constipação, segundo a endocrinologista pediátrica Louise Cominato, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Contexto global e desafios locais

Embora a aprovação brasileira acompanhe decisões internacionais, especialistas lembram que regulação não significa acesso amplo pelo SUS. “O Brasil não é o primeiro, mas está entre os países que acompanharam relativamente cedo essa ampliação de indicação”, diz Amato.

Ela ressalta que a liberação não deve ser interpretada como solução simples: “Não é uma ‘caneta de emagrecimento’ para qualquer criança, nem resolve sozinho a epidemia de obesidade infantil”.