Fila para concessão de empréstimo consignado: a solução que vira um problema. (Foto: Divulgação)


A realidade econômica do Brasil em 2026 apresenta um cenário de sobrevivência persistente. Segundo dados de pesquisa Datafolha divulgados nesta segunda-feira (27), a “insuficiência de rendimentos” tornou-se uma característica estrutural do cotidiano brasileiro: 59% dos cidadãos afirmam que o que ganham é insuficiente para cobrir suas despesas básicas.

Esse fenômeno não é apenas um número estatístico, mas um reflexo de um ciclo de endividamento e busca incessante por fontes alternativas de sobrevivência.

Abismo: rendimento x custo de vida

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A percepção de que o dinheiro “não chega ao fim do mês” é mais severa entre as populações de baixa renda. Para aqueles que recebem até dois salários mínimos, a taxa de insuficiência dispara, atingindo 7 em cada 10 brasileiros.

Mesmo entre aqueles que consideram sua situação financeira “regular” (48% da população), a margem de manobra é mínima.
Apenas uma pequena fração dos entrevistados consegue classificar sua situação como “ótima” ou “boa” (13% e 28%, respectivamente), evidenciando que o bem-estar financeiro é um privilégio de poucos.

A busca pela renda extra

Diante da escassez, o brasileiro não fica parado. Aproximadamente 45% da população procurou alguma forma de rendimento complementar nos últimos meses.
Curiosamente, a pesquisa indica que a busca por “bicos” ou fontes extras é mais frequente entre aqueles com ensino médio e superior.

O economista Fabio Bentes, da CNC, explica que isso ocorre porque, embora o mercado de trabalho esteja aquecido em termos de ocupação, os salários permanecem historicamente baixos.

Para quem tem menor escolaridade, muitas vezes não há sequer tempo ou oportunidade para procurar uma segunda fonte, estando estes mais restritos ao trabalho informal ou doméstico.

Mulheres

A desigualdade de gênero é um dos pontos mais críticos do estudo. As mulheres brasileiras não só ganham cerca de 20% menos que os homens, como também são as que mais sofrem com a sobrecarga financeira. Enquanto 52% dos homens procuraram renda extra, entre as mulheres esse índice sobe para 59%.

A vulnerabilidade feminina é agravada pelo fato de muitas serem chefes de família monoparentais, assumindo sozinhas a responsabilidade financeira pelos filhos. Atualmente, 36% das mulheres afirmam estar com o “nome sujo” (negativadas), refletindo uma maior exposição ao endividamento para a compra de itens básicos.

Saúde mental x humor financeiro

A economia também se manifesta no corpo e na mente.

O Datafolha criou um índice de “humor financeiro” baseado em sentimentos como medo, insegurança e desânimo. O resultado é preocupante: 4 em cada 10 brasileiros relatam um humor “ruim ou péssimo” em relação às suas finanças.

Esse impacto é, novamente, maior nas mulheres: 42% delas sentem que a situação financeira afeta negativamente sua saúde mental (contra 28% dos homens) e 41% sentem reflexos na saúde física (contra 28% dos homens). Até mesmo a vida amorosa é afetada, com 23% das mulheres relatando prejuízos nesta área devido a problemas financeiros.

Perspectiva

O cenário atual é condicionado por três vetores principais: um mercado de trabalho de baixos salários, a inflação que corrói o poder de compra e taxas de juros que, em algumas modalidades de crédito, ultrapassam os 60% ao ano. Para 41% dos brasileiros, houve uma redução real do rendimento familiar nos últimos meses, sendo a faixa etária dos 35 aos 44 anos a mais atingida.

Sem uma mudança estrutural nas condições de crédito e uma valorização real dos salários, a busca pela renda alternativa continuará a ser, mais do que uma escolha, uma estratégia de sobrevivência para a maioria da população.