Relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) colocaram sob suspeita uma movimentação milionária envolvendo o grupo J&F, controlador da JBS, e uma advogada de Brasília até então pouco conhecida nos grandes tribunais.
Maísa Marciano, que registrava rendimentos mensais médios de R$ 9 mil e operava em uma sala de trabalho compartilhado (coworking), recebeu R$ 11 milhões das empresas em dezembro de 2023.
O Elo com o Judiciário
O que despertou o alerta das autoridades não foi apenas a disparidade entre o histórico financeiro da profissional e o valor do contrato, mas o destino final de parte dos recursos. Segundo o Coaf, Maísa repassou R$ 3,5 milhões a Paulo Humberto Barbosa, empresário do setor imobiliário.
Barbosa é uma figura central em transações recentes que envolvem o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O empresário adquiriu as cotas que o magistrado possuía em um resort de luxo, negócio que já havia sido alvo de questionamentos sobre a transparência e os valores de mercado envolvidos.
O novo fluxo financeiro estabelece, na visão de investigadores, uma triangulação que precisa ser esclarecida para descartar qualquer ligação entre os pagamentos do grupo empresarial e interesses em processos judiciais.
Ascensão meteórica
Até a assinatura deste contrato, a atuação de Maísa Marciano era restrita a causas de menor vulto. A transição de um escritório de baixo custo para o recebimento de honorários que figuram entre os maiores do país para profissionais autônomos é descrita no relatório como uma “mudança abrupta de perfil econômico”.
Investigações desse tipo geralmente buscam identificar se a prestação de serviço jurídico foi real ou se a estrutura serviu apenas como “veículo” para a transferência de valores a terceiros (prática conhecida no jargão jurídico como lavagem de dinheiro ou ocultação de bens).
Contraditório e defesa
Em nota oficial enviada à imprensa, o grupo J&F afirmou que “todos os pagamentos realizados a prestadores de serviços seguem rigorosas normas de compliance”. A empresa enfatizou que Maísa Marciano foi contratada por sua expertise específica e que os trabalhos produzidos foram entregues e estão à disposição das autoridades competentes.
A defesa de Paulo Humberto Barbosa e o gabinete do ministro Dias Toffoli não comentaram diretamente o teor do relatório do Coaf à época das primeiras divulgações, mantendo a posição de que os negócios imobiliários entre ambos foram estritamente privados e lícitos.





