Marcos Strecker


Marcos Strecker*

A exuberância da economia brasileira continua intrigando os especialistas. O crescimento do PIB desafia as previsões negativas desde o início da gestão Lula. Em 2024, foi de 3,4%, melhor resultado desde 2021, com sinais positivos até na indústria. Para o primeiro trimestre deste ano, já circulam prognósticos otimistas com alta de até 1,5% (apenas em janeiro, o IBGE registrou expansão de 0,9%, maior nível desde 2003). Os números oficiais saem no próximo dia 30, e o governo já conta com boas notícias.

Ainda que as previsões no mercado, em geral, sejam ainda de desaquecimento (o Banco Central, por exemplo, reduziu a projeção de 2,1% para 1,9% neste ano), há vários sinais que contradizem os céticos. O agro deve puxar o crescimento nos primeiros meses do ano, e a CNA prevê safra recorde no ano, depois da quebra de 2024.

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As vendas permanecem aquecidas. Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada na quinta-feira (15), mostrou que o varejo cresceu 0,8% em março em relação ao mês anterior, alcançando o maior patamar desde 2000, incluindo alta robusta nos supermercados. A expansão nas vendas de veículos e material de construção, que integram o varejo ampliado, foi de 1,9% frente a fevereiro, com destaque para o setor de veículos e peças (+1,7%) e material de construção (+0,6%).

Tem mais. Houve forte entrada de capital estrangeiro na B3 desde o início do ano (cerca de 17 bilhões de reais), o que levou a bolsa brasileira a novo recorde nominal, compensando o quadro de desânimo e paralisia no início do ano, com a seca de IPOs. Junte-se a isso o baixo desemprego e o dólar em queda, e o cenário parece muito favorável para a reeleição do presidente em 2026. Só que não.

Com a inflação persistente e a Selic no maior patamar em quase 20 anos (14,75%), a economia continua com o freio de mão puxado. A bomba-relógio da dívida pública ainda turva as projeções para o futuro. E o bate-cabeça do governo no Congresso não dá sinais de ceder, sendo um reflexo da popularidade em dificuldades do presidente. Depois da crise do PIX, o vexame com os desvios dos aposentados no INSS jogou por terra o esforço de Sidônio Palmeira na nova Secretaria de Comunicação.

A tentação do governo, é claro, é abrir os cofres e aquecer a economia o máximo possível até o pleito presidencial, ignorando os esforços de Gabriel Galípolo no Banco Central para conter a inflação. Isso deixará Fernando Haddad cada vez mais em isolado e em dificuldades para segurar o desacreditado arcabouço fiscal. O “centro” do governo se enfraquece. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, perdeu auxiliares importantes. E o papel do vice Geraldo Alckmin na corrida presidencial está para lá de incerto.

Com o isolamento de Lula em Brasília, a ida de Gleisi Hoffmann para o Planalto, junto com a provável chegada de Guilherme Boulos, mostra uma gestão cada vez mais inclinada à esquerda. Assim, o moderado Haddad virou a verdadeira “frente ampla” do governo Lula. Parece pouco para criar uma nova maioria capaz de vencer as próximas eleições. Não espanta que ganhem cada vez mais força as articulações juntando os governadores “de direita” para uma oposição responsável como alternativa real ao país. O limite parece ser a vassalagem que ainda insistem em demonstrar com Jair Bolsonaro.