André Luiz Petraglia


André Luiz Petraglia*

Somos animais de hábitos. Há muito tempo pessoas observadoras notaram que, ao adquirirmos determinados hábitos, dificilmente os abandonamos. Desta forma, todo vendedor ou empresa vendedora procura explorar essa característica humana através da manutenção de nossos padrões repetitivos de comportamento. Foi assim com os inúmeros ciclos comerciais à época das grandes navegações como o do açúcar, do café e das especiarias, para o consumo europeu. Steve Jobs, observando a mais óbvia característica humana, eternizou a frase:

“As pessoas não sabem o que querem até que você mostre a elas”. Permitindo-me complementar tão inteligente pensamento do visionário estrategista, eu diria que as pessoas sabem, sim, o que querem. Elas querem consumir. Resta descobrirmos como chamar a atenção para que o nosso produto se torne o objeto de desejo que, assim como o café, o açúcar ou os produtos da Apple, seja capaz de criar fiéis seguidores, preferencialmente, ao redor de todo o planeta. Foi assim que chegamos a um sistema hoje denominado globalização. Quando professor e coordenador de um curso de publicidade e propaganda, eu costumava explicar o principal motivo de a propaganda ter a obrigação de ser criativa: “Se toda vez que dizemos algo, precisamos ser criativos, é porque sempre estamos dizendo a mesma coisa”. Os mais “experientes”, como eu, aqueles que já estamos no planeta há algumas décadas, devem se lembrar de alguns slogans do icônico refrigerante: “Beba Coca-Cola”, “Coca-Cola é isso aí”, “Sempre Coca-Cola”, “Coca-Cola: sinta o sabor”, entre outros.

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Se pensarmos bem, o produto Coca-Cola é relativamente o mesmo desde sua criação em 1892, na cidade de Atlanta, Geórgia, nos Estados Unidos. Possui basicamente a mesma receita, a mesma marca, a mesma embalagem há mais de 130 anos. Um velhinho que se mantém vivo e forte através dos tempos porque renova constantemente a maneira de se comunicar com todas as gerações. E, enquanto muda criativamente seu comportamento e suas frases de impacto de tempos em tempos, no fundo está dizendo sempre a mesma coisa: “Compre o meu produto!”. Mas, essa constância insistente, esse “bater na mesma tecla” não existe apenas na comunicação comercial.

Nossas crenças e valores morais e espirituais são construídos constantemente através da repetição de nossos “mantras” pessoais. Repetimos em nosso imaginário o pensamento maniqueísta no qual o mundo se divide entre o bem e o mal. Os times do coração, as cores de cada pátria, nosso olhar para outras etnias, absolutamente tudo com o que nos relacionamos tem seus valores agregados em nossas mentes por conta da constante afirmação e repetição.

Portanto, se queremos compreender melhor nossas insatisfações, nossos desejos, nossas bases morais e o que nos move todos os dias, importante se faz darmos um passo atrás e prestarmos atenção em tudo que em nós é crença de valor positivo ou negativo e, se um dia a humanidade toda tiver essa clareza na mente e no coração, certamente os preconceitos cairão e conseguiremos alcançar a tão almejada paz universal, aliás, sendo essa tal “paz universal”, outro conceito pré-concebido, cuja relevância também deveríamos refletir e reavaliar.

*André Luiz Petraglia é escritor, palestrante e consultor de comunicação e design.