Ao Estadão, a Secretaria de Estado da Fazenda e Planejamento afirmou que “os proventos de aposentadoria são pagos conforme a legislação vigente, não havendo previsão legal para a suspensão desses pagamentos no curso das investigações ou procedimentos disciplinares”. Segundo a pasta, caso sejam comprovadas as condutas apuradas no Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado, poderá ser aplicada a penalidade de cassação de aposentadoria.
A reportagem pediu manifestação da defesa de Murakami. O espaço está aberto para manifestações.
O Portal da Transparência do Governo de São Paulo indica que “Americano” recebeu R$ 20.572,09 em agosto, mês em que a Operação Ícaro foi deflagrada, e, já foragido, outros R$ 20.547,09 em setembro e R$ 20.522,09 em outubro. Em novembro, o valor foi de R$ 18.858,98, seguido de um aumento em dezembro, quando os proventos chegaram a R$ 43.694,35, em valores líquidos.
Em janeiro, o montante pago foi de R$ 18.830,88. Em fevereiro, o nome de Murakami não aparece na lista de pagamentos da Secretaria da Fazenda. Em março, os repasses saltaram para R$ 43.608,44.
Foi em março que, por meio de sua defesa, “Americano” comunicou à Justiça de São Paulo que não pretende mais retornar ao País porque tem um “projeto de vida” a realizar nos EUA. Para investigadores da Operação Ícaro, a estratégia do fiscal foragido representa um acinte à Justiça.
Aposentado desde janeiro de 2025, Murakami, ou “Americano” – como é conhecido por seus colegas que também são alvos da Operação Ícaro -, é suspeito de receber vultosas quantias em espécie do empresário Aparecido Sidney Oliveira, dono do Grupo Ultrafarma.
Ele trabalhava na Delegacia Regional Tributária da Capital III (Butantã), posto fiscal em que a farmacêutica pedia o ressarcimento de ICMS-ST. “Americano” analisava os pleitos da empresa e emitia pareceres pelo deferimento, beneficiando-a diretamente, segundo o Gedec – unidade do Ministério Público que combate delitos de ordem econômica e descobriu os caminhos da corrupção na Fazenda via ressarcimento indevido, mediante subornos milionários, de créditos de ICMS-ST.
Alberto Toshio Murakami era o fiscal mais próximo de Artur Gomes da Silva Neto, apontado como mentor de um esquema que teria arrecadado ao menos R$ 1 bilhão em propinas de grandes redes do varejo em troca do deferimento acelerado de créditos de ICMS-ST.
Preso desde a deflagração da Operação Ícaro, em agosto de 2025, Artur chegou a negociar um acordo de delação premiada com o Gedec, mas as tratativas não avançaram. Os promotores avaliaram que as informações apresentadas eram insuficientes e já haviam sido obtidas no curso da investigação. À época dos crimes, o fiscal estava lotado na Diretoria de Fiscalização, onde atuava como supervisor de redes do comércio varejista.
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Casado com CEO e alvo da Interpol
Foragido desde agosto, Alberto “Americano” alegou à Justiça que, antes de se tornar alvo de mandado de prisão preventiva na Operação Ícaro, já tinha um projeto de vida no exterior e que sua mulher é CEO de uma empresa nos EUA de importação de mármore.
No pedido de revogação da prisão à Justiça, o qual foi negado liminarmente pela desembargadora Carla Rahal, da 11.ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado, a defesa do fiscal apontou que ele “é réu primário, portador de bons antecedentes, com residência fixa – tanto no Brasil quanto nos EUA – e família constituída com duas filhas, netas e esposa”.
Em janeiro, a Justiça de São Paulo mandou incluir na Difusão Vermelha da Interpol o nome de Alberto Toshio Murakami. A decisão foi tomada pela 1.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro, que acolheu pedido de promotores do Gedec.
A defesa de Alberto Murakami argumenta que “a decisão de residir fora do País foi tomada e concretizada de forma natural, como um projeto de vida pós-aposentadoria, pois sua esposa e filhos já residem há mais de 20 anos nos Estados Unidos da América”.




