Marcos Strecker


Marcos Strecker*

A equipe econômica anunciou, na última terça-feira (22), a liberação de R$ 22,6 bilhões que haviam sido congelados para evitar o estouro das metas fiscais deste ano. A justificativa foi o aumento da projeção de arrecadação, maior do que o previsto. Essas contas não são feitas de última hora. Se já havia a previsão de aumento nas receitas, o governo poderia ter aberto mão de parte do tarifaço imposto ao IOF, acolhido pelo ministro Alexandre de Moraes após disputa entre o Executivo e o Congresso.

A alta do IOF não está relacionada apenas ao aumento da carga tributária — já excessiva, como alertam analistas que veem a economia brasileira patinar em baixa produtividade. Trata-se de um imposto que encarece o crédito e trava os negócios, como já advertido por diversos setores, incluindo a Fiesp. Isso ocorre em um momento de alta recorde da Selic, reflexo da gastança desenfreada do governo.

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Mas Lula não vê motivos para mudar de rota na economia. Após receber um presente de Donald Trump — que penalizou o Brasil com a maior taxa imposta a um aliado na guerra comercial global — ele se sente confortável para aprofundar sua estratégia de polarizar o debate público sob o mote “pobres contra ricos”. A ação estapafúrdia do presidente americano encurralou o bolsonarismo e permitiu ao PT defender a soberania nacional e adotar cores nacionalistas (finalmente, os militantes conseguiram usar o verde e amarelo).

O presidente contou ainda com uma mãozinha de Arthur Lira, que abriu caminho no Legislativo para aprovar a isenção do IR para a classe média. Com o encolhimento visível da candidatura de Tarcísio de Freitas, fica facilitado o caminho para estressar a economia com benefícios voltados à reeleição no próximo ano. O arcabouço fiscal só precisa sobreviver, ainda que nas aparências, até o pleito. O descontrole das contas será resolvido em 2027.

Não é apenas uma questão de sorte — embora Lula seja conhecido por contar com o acaso. O presidente tem sido hábil ao lidar com os arroubos de Trump, ao colocar o moderado (e pró-mercado) Geraldo Alckmin no comando das negociações com o governo americano, que têm pouca chance de sucesso.

Em almoço com a cúpula do PS, Lula sinalizou que conta novamente com o ex-tucano como vice em sua chapa no próximo ano, o que pode reeditar uma aliança com o centro não bolsonarista, mais palatável ao eleitor. Isso acontece mesmo que a frente ampla, fora da órbita petista, seja apenas pro forma — como o presidente demonstrou ao longo da gestão.

Com os dados macroeconômicos comportados (inflação controlada, desemprego baixo e PIB positivo), ainda que insustentáveis no médio e longo prazo, Lula se sente à vontade para um fim de mandato tranquilo, já se movimentando mais livremente para pavimentar a campanha do próximo ano. “Tá tranquilo, tá favorável”, como diz o funk de MC Bin Laden. Será?

*Marcos Strecker é jornalista