Através do sangue a possibilidade de antecipar o câncer. (Foto: Reprodução)


A cada 60 segundos, uma mulher morre vítima de câncer de mama no mundo. O dado da Organização Mundial da Saúde (OMS), que contabiliza 670.000 óbitos anuais, esconde uma lacuna técnica: a maioria dessas mortes poderia ser evitada com um diagnóstico precoce.

No Brasil, onde o Instituto Nacional de Câncer (Inca) registra 21.000 fatalidades por ano, a barreira não é apenas médica, mas logística e financeira. É nesse cenário que a startup paulistana Huna tenta mudar o paradigma da oncologia diagnóstica por meio da inteligência artificial (IA).

Fundada em 2022, a empresa desenvolveu um modelo capaz de detectar padrões invisíveis ao olho humano em um dos exames mais simples e universais da medicina: o hemograma. Enquanto empresas em economias centrais apostam em marcadores genéticos de alto custo, a Huna foca no processamento de dados de exames de sangue convencionais. “Nosso desafio era aplicar a IA em emergências de saúde pública de países de baixa renda”, explica Vinicius Ribeiro, cofundador e CEO da companhia.

Continua depois da publicidade

O rastro do “oculto”

O nome da empresa — “Huna” significa “oculto” em maori — sintetiza o problema da oncologia. Quando os sintomas aparecem, geralmente o quadro é avançado. Se descoberto no estágio inicial, a sobrevida do paciente supera os 95%; na fase de metástase, esse índice cai para menos de 30%. O algoritmo da Huna, treinado com vastas bases de dados, identifica variações sutis que, isoladamente, não despertariam suspeitas, mas que em conjunto sinalizam o risco para cinco tipos de tumor: mama, colorretal, próstata, pulmão e colo do útero.

A tecnologia não substitui o médico, mas atua como uma ferramenta de triagem populacional. O modelo de negócio foca em operadoras de saúde, que utilizam a ferramenta para monitorar suas bases de segurados. Ao identificar um perfil de risco, a operadora emite um alerta para exames confirmatórios. Além do benefício clínico, há um fator econômico decisivo: o tratamento precoce é, em média, 50% mais barato. A OMS estima que, até 2030, os gastos oncológicos superem os cardíacos, atingindo um custo global de 25 trilhões de dólares até 2050.

Expansão e gestão do cuidado

A trajetória da Huna ganhou relevância científica com a publicação de seus métodos na revista Nature Scientific Reports. Recentemente, a startup foi selecionada como finalista do programa MIT Solve e apresentará sua tecnologia na Assembleia Geral da OMS, em Genebra. Com um investimento acumulado de US$ 2,4 milhões de fundos como KX Ventures e Niu Ventures, a empresa agora expande sua atuação para a “coordenação do cuidado”.

“Infelizmente, a maioria dos casos só é descoberta tarde demais”, afirma Daniella Castro, diretora de tecnologia da Huna.

O novo braço de serviços da empresa visa combater o abandono do tratamento, que atinge 30% dos pacientes após os primeiros exames suspeitos. A IA agora também orienta o paciente sobre onde realizar exames e como acessar resultados. Com o equilíbrio financeiro previsto para o final de 2027 e o interesse de investidores estrangeiros, Ribeiro considera a expansão global um passo lógico: “O hemograma é idêntico em qualquer lugar do mundo. A internacionalização é inevitável”.