O presidente dos EUA, Donald Trump, enfrenta o momento mais delicado de seu segundo mandato. O desgaste combina o início de uma guerra no Irã, o repique inflacionário e uma dose de sincericídio que forneceu munição de calibre pesado para a oposição democrata às vésperas das eleições de meio de mandato (midterms), que renovam o Congresso.
Questionado se a deterioração da economia dos americanos o motivaria a buscar um acordo de paz, Trump foi direto: “Nem um pouco. Eu não penso na situação financeira dos americanos”. A frase, dita na semana passada e referendada dias depois em entrevista à emissora Fox News, colidiu com a plataforma populista que o elegeu —a de defensor dos trabalhadores esquecidos pela globalização.
O fator bolso: gasolina e comida disparam
O Palácio do governo americano (a Casa Branca) argumenta que o foco do presidente está na segurança nacional e no impedimento de o Irã obter armas nucleares. No entanto, para o cidadão comum, o custo do conflito já chegou às bombas de combustível e aos caixas de supermercado.
- Combustíveis: O preço do galão de gasolina nos EUA ultrapassou a marca de US$ 4,50 (cerca de R$ 22), uma alta superior a 40% desde o início dos combates, em fevereiro.
- Inflação: O índice de preços registrou em abril o avanço mais rápido em três anos, puxado pelo encarecimento de itens básicos, do tomate aos frutos do mar.
- Percepção pública: Pesquisa do canal CNN indica que 77% dos americanos —incluindo a maioria dos eleitores republicanos— avaliam que as decisões de Trump encareceram o custo de vida.
A estratégia do contraste
Diferentemente de antecessores que enfrentaram guerras econômicas, como George W. Bush em 2008, Trump abriu mão da retórica da empatia. À época da guerra do Afeganistão, Bush vinha a público dizer que “entendia a ansiedade do povo”. Trump, por outro lado, classificou sua própria fala como “perfeita”.
Para analistas políticos, o erro do republicano não foi a condução da política externa, mas a quebra de uma regra de ouro do pragmatismo político: confirmar a pior suspeita do eleitorado de que um presidente bilionário não se importa com as dificuldades da classe média.
Negócios em família
O mal-estar econômico coincide com o escrutínio sobre os negócios da família presidencial. Enquanto o eleitorado lida com a inflação, o filho do meio do presidente, Eric Trump —que comanda os negócios privados do grupo—, integrou a comitiva oficial da Casa Branca em viagem diplomática à China. A oposição questiona a mistura entre o interesse público e os negócios imobiliários da empresa familiar no país asiático.
Com os republicanos sob o risco real de perder o controle das duas Casas do Congresso na próxima eleição, a oposição democrata já prepara comerciais de TV centrados na frase do presidente. O teste das urnas dirá se o eleitorado vai relevar a fraqueza econômica em nome da segurança externa ou cobrar o preço diretamente nas urnas.





