Marcos Calliari, CEO do Ipsos, que analisa a pesquisa sobre criminalidade e violência. (Foto: Divulgação)

A segurança pública assumiu o centro absoluto das angústias nacionais, de acordo com a mais pesquisa Ipsos What Worries the World (WWW), divulgada nesta terça-feira (2).

A preocupação com crime e violência registrou um salto raro de intensidade, elevando-se em 12 pontos percentuais (p.p.) em apenas um mês para atingir 52%.

Este é o maior patamar registrado no Brasil em 2025 e o mais alto desde novembro de 2018. O crescimento brusco, embora não imprevisível, reflete diretamente o impacto da grande operação deflagrada no Rio de Janeiro contra o crime organizado, que expôs de maneira explícita a escalada dos confrontos entre facções e grupos paramilitares no estado. A dimensão da ação — com mobilização de forças federais, alto número de fatalidades e repercussão contínua na imprensa — amplificou a sensação de urgência e risco.

Além do noticiário, o debate sobre criminalidade ganhou impulso adicional com a alta repercussão de duas séries de streaming:

“Tremembé” (Globoplay), que revisita crimes midiáticos e a cultura de acompanhamento ritualístico de grandes casos, e “Os Donos do Jogo” (Netflix), que aborda as engrenagens econômicas do crime organizado.

A simultânea ocupação do centro da cultura pop por essas narrativas intensificou a sensação de risco, fazendo com que crime e violência não apenas liderem o ranking das preocupações nacionais, mas se distanciem dos demais temas por uma margem inédita no ano.

Logo após a segurança, o ranking das preocupações brasileiras mostra movimentos importantes. Pobreza e desigualdade social subiram para o segundo lugar, com 38% (+5 p.p.), refletindo o debate acentuado sobre as condições de vida e distribuição de renda, com destaque para a visibilidade dada ao aumento do limite de isenção do Imposto de Renda. Saúde aparece em terceiro lugar, marcando 36% (+3 p.p.), impulsionada pela visibilidade de campanhas recentes como Setembro Amarelo, Outubro Rosa e Novembro Azul.

Já a corrupção financeira e política registrou uma queda para 34% (–5 p.p.), indicando uma possível trégua nas manchetes, mas a Ipsos levanta a hipótese de que escândalos recentes (como Banco Master e Grupo Fit) possam provocar um crescimento na próxima onda de estudo.

Por fim, impostos recuaram para 25% (–4 p.p.), o que sugere um esfriamento nas discussões tributárias no noticiário.

Estados Unidos

Globalmente, o estudo WWW também revela tensões profundas. Nos Estados Unidos, a inflação continua sendo a ansiedade número 1, acompanhada por um salto de 5 pontos na preocupação com a saúde, que traduz a angústia da população com a inflação persistente e os custos crescentes de serviços médicos.

França

Na França, o aumento de 9 pontos na preocupação com os impostos revela um profundo descontentamento institucional, com 91% dos franceses afirmando que o país está no caminho errado.

Argentina

Já na Argentina, o panorama é paradoxal: a violência se intensifica (+9 p.p.), mas a parcela que acredita que o país está no rumo certo sobe para 59%, sugerindo que parte da população enxerga nas reformas econômicas uma oportunidade para domar o crime e retomar o controle.

Em suma, o estudo What Worries the World revela um cenário global em que preocupações mudam rapidamente e refletem tensões profundas, da violência no Brasil ao peso da inflação nos EUA e ao cansaço institucional na França.

Leia aqui a análise da pesquisa feita por Marcos Calliari, CEO da Ipsos Brasil

A edição de novembro do Ipsos What Worries the World traz um movimento raro pela intensidade: a preocupação com crime e violência saltou 12 pontos percentuais em apenas um mês e atingiu 52%, o maior patamar registrado no Brasil em 2025 e a maior desde novembro de 2018. A segurança pública está no centro absoluto das angústias do país. Trata-se de um crescimento brusco, mas não imprevisível: o dado reflete o impacto direto da grande operação deflagrada no Rio de Janeiro contra o crime organizado, que expôs de maneira explícita a escalada dos confrontos entre facções e grupos paramilitares no estado. A dimensão da ação — com mobilização de forças federais, alto número de fatalidades, fechamento de vias e repercussão contínua na imprensa — amplificou a sensação de urgência e risco, ajudando a explicar a disparada da preocupação com violência neste mês. Esse tipo de operação, pela sua dimensão e pela narrativa de confronto, tende a amplificar a sensação de urgência e de risco.

Além disso, o debate público sobre criminalidade ganhou impulso adicional com dois fenômenos culturais que dominaram o streaming e as redes sociais nas últimas semanas: Tremembé (Globoplay) e Os Donos do Jogo (Netflix), séries que tiveram altíssima repercussão e audiência, e que explicitamente discutem criminosos brasileiros. Tremembé revisita alguns dos crimes mais emblemáticos e midiáticos do país, aqueles que mobilizaram a opinião pública entre versões contraditórias, julgamentos sociais atrelados ao noticiário e discussões sobre o funcionamento das instituições de justiça. A série expõe como o Brasil construiu, ao longo das décadas, uma cultura de acompanhamento quase ritualístico dos grandes casos criminais, e como isso molda a percepção coletiva de insegurança.

Já Os Donos do Jogo aborda a face estrutural do crime organizado, revelando suas engrenagens econômicas, disputas territoriais e o impacto direto das facções na dinâmica das grandes cidades. Quando essas duas narrativas — o crime que vira espetáculo e o crime que governa territórios — ocupam simultaneamente o centro da cultura pop, o tema extrapola o noticiário policial e invade conversas cotidianas. Esse alinhamento entre entretenimento, mídia e política intensifica a sensação de risco, e o resultado aparece nos dados: crime e violência não só lideram as preocupações nacionais, como se distanciam dos demais temas por uma margem inédita no ano.

Logo após crime e violência, o ranking das preocupações mostra movimentos importantes. Pobreza e desigualdade social aparecem em segundo lugar, com 38% (+5 p.p.), refletindo um debate cada vez mais acentuado sobre condições de vida e distribuição de renda. Aqui, vale ressaltar a visibilidade do aumento do limite para isenção do Imposto de Renda, cuja aprovação foi impulsionada sob argumento de distribuição de renda e redução da desigualdade. Em terceiro lugar vem a saúde (36%, +3 p.p.), impulsionada pela visibilidade de campanhas recentes de saúde, como Setembro Amarelo (saúde mental), Outubro Rosa (câncer) e Novembro Azul (Saúde Masculina), muitas vezes acompanhadas de campanhas publicitárias públicas e de marcas.

Já a corrupção financeira e política, apesar de ainda ocupar lugar entre os grandes medos, caiu para 34% (–5 p.p.), possivelmente refletindo uma leve trégua nas manchetes ou uma mudança na atenção pública depois de meses de escândalos intensos. Há uma hipótese de que escândalos recentes, como Banco Master e Grupo Fit, por exemplo, possam provocar o crescimento dessa preocupação, o que confirmaremos na próxima onda do estudo.

Por fim, os impostos recuam para 25% (–4 p.p.), o que pode indicar um esfriamento das discussões tributárias no noticiário, ainda que debates sejam intensos sobre justiça fiscal, justamente quando o IR mínimo pode sofrer ajustes para beneficiar os de renda mais baixa.

Nos Estados Unidos, o salto de 5 pontos na preocupação com a saúde reflete muito mais do que uma crise sanitária: ele traduz a angústia de uma população que convive com inflação persistente, custos crescentes de serviços médicos, planos de saúde e medicamentos. Ao mesmo tempo, a inflação continua sendo a ansiedade número 1 dos americanos, um combo que pesa no orçamento e alimenta o pessimismo.

Na França, o aumento de 9 pontos na preocupação com os impostos revela que o cidadão sente diretamente o peso das políticas fiscais e não acredita no rumo do país: 91% afirmam que a França está no caminho errado. Esse descontentamento institucional é sintomático de uma insatisfação mais profunda com o modelo de Estado e a redistribuição de renda.

Já na Argentina, o panorama é paradoxal, e por isso tão revelador: a violência se intensifica (+9 p.p.), mas, ao mesmo tempo, a parcela que acredita que o país está no rumo certo sobe para 59%. É como se parte da população enxergasse nas reformas econômicas de Milei uma oportunidade para domar o crime e retomar um certo controle, mesmo que isso venha acompanhado de riscos claros.

No fim, o que o estudo revela é um cenário global em que preocupações mudam rápido e refletem tensões profundas, da violência no Brasil ao peso da inflação nos EUA e ao cansaço institucional na França. Ler esses movimentos é fundamental para compreender o humor social e a disposição das pessoas diante do futuro.