A guerra muda de endereço: de Teerã para Beirute
Moisés Rabinovici*
Nunca vi o Líbano sofrer um ataque tão pesado como o desta noite, nas vezes em que estive no front libanês, em 1978 e 1982. Beirute estava encoberta por fumaça, cortada por explosões que brilhavam no horizonte.
O Hezbollah, milícia apoiada pelo Irã, havia provocado Israel mais cedo, disparando cerca de 100 mísseis.
Há cerca de um milhão de pessoas deslocadas de suas casas. Um prédio foi atingido por impacto direto no centro da capital, enquanto no sul — como em 1982, quando Israel atacava a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) — as bombas voltaram a cair, disparadas de caças ou de navios na costa libanesa.
Pode ser que Israel esteja tentando neutralizar seu front no Líbano porque teme ficar sozinho no front iraniano. O presidente Donald Trump, que parece ter subido numa árvore de onde não sabe como descer, tem repetido que, para os Estados Unidos, a guerra pode estar acabando.
“Não temos mais alvos”, comentou.
No Estreito de Hormuz há cerca de mil petroleiros parados, evitando desafiar o Irã, que deixou passar apenas alguns navios chineses e russos, seus aliados. Um drone iraniano atingiu um reservatório de petróleo no Sultanato de Omã — o país que havia servido de mediador nas negociações entre americanos e iranianos que desembocaram na guerra, agora em seu 12º dia, exatamente o tempo que durou a guerra de junho do ano passado.
Os ataques que se expandem em Beirute se aprofundam também no sul do Líbano, onde tropas israelenses — infantaria e tanques — avançam desde o começo da semana.
Ontem, o governo libanês propôs negociações diretas de cessar-fogo com Israel. A proposta não foi aceita, nem por Israel nem pelos Estados Unidos. As forças libanesas não têm condições de desarmar o Hezbollah, milícia iraniana encravada em seu território.
Antes considerada a “Suíça do Oriente Médio”, o Líbano foi devastado pela guerra civil e pela guerra entre Israel e a OLP. Reconstruído com enorme esforço pelos libaneses, o país volta agora a ser mutilado pelas bombas.

Enquanto as explosões em Beirute ganhavam o horário nobre das TVs no mundo, em Israel aguardava-se o prometido ataque principal do Irã. A população, extenuada, passa noites e dias correndo para os abrigos antiaéreos.
Os últimos mísseis iranianos que atingiram o território israelense carregam ogivas de fragmentação. Ao explodirem, espalham estilhaços fumegantes que devastam uma larga área. Quem estiver de pé pode ser atingido.
Por isso, ao contrário dos Estados Unidos, o governo de Benjamin Netanyahu calcula que a guerra possa durar semanas, não apenas alguns dias.
EUA e Israel não conseguiram derrubar o regime teocrático do Irã, mesmo após matar o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Ele foi substituído pelo filho, que teria ficado ferido no ataque contra o pai.
A situação pode ter ficado ainda pior. Assumiu o poder um aiatolá considerado mais duro, que certamente buscará vingança pelos mortos de sua família.
As operações Fúria Invicta e Rugido do Leão tampouco destruíram os arsenais iranianos, que ainda dispõem de estoques suficientes para sustentar novos ataques.
Também não se concretizou, ao menos por enquanto, a expectativa de que manifestações derrubassem a teocracia de 47 anos. Se ocorrerem, talvez levem meses — ou um ano — para ganhar força nas ruas.
E ainda faltam os houthis, do Iêmen, bem armados pelo Irã. Eles ainda não entraram diretamente na guerra. Israel, porém, já procura algum ponto na Somalilândia — o aliado mais próximo — de onde poderia reagir caso seja atacado.
Partindo de Israel, seus caças teriam de percorrer cerca de mil quilômetros, reabastecendo no ar.
Beirute arde outra vez — e talvez nem seja ainda o verdadeiro campo de batalha desta guerra.
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.





