Moisés Rabinovici*
No 14º dia da guerra no Oriente Médio, nenhum míssil ou drone foi disparado pelos houthis iemenitas — aliados armados e treinados pelo Irã, como o Hezbollah, que abriu um novo front a partir do Líbano.
Até agora, a milícia iemenita (ou Ansar Allah, “Apoiadores de Deus”) disparou apenas declarações de apoio ao Irã. Será a calma antes da tormenta?
Uma fonte em Sanaa, capital do Iêmen sob controle dos Houthis, explicou ao jornal israelense Yedioth Ahronoth (Ynetnews):
“Eles estão esperando para ver como a guerra se desenvolve, no Irã e na região, para então decidir se intervirão ou não, de acordo com suas necessidades.”
As fotos do aiatolá Ali Khamenei, morto no primeiro dia dos ataques de Israel e dos Estados Unidos, ficaram expostas em Sanaa por alguns dias, mas já foram substituídas pelas do líder Abdul-Malik al-Houthi, sucessor do pai em 2010 — assim como Mojtaba Khamenei assumiu agora a liderança suprema do Irã.

“Os houthis não estão correndo riscos que possam levar ao seu colapso ou enfraquecer sua influência, como aconteceu com o Hezbollah”, acrescentou a mesma fonte ao Ynetnews.
“Eles estão tentando aprender com a guerra para não repetir os erros dos outros.”
O slogan do movimento continua o mesmo:
“Morte à América, morte a Israel, maldição aos judeus, vitória ao Islã.”
Durante a guerra em Gaza, os houthis dispararam mísseis e drones contra Israel, cobrindo cerca de 2.200 quilômetros em linha reta. A aviação israelense retaliou, reabastecendo seus aviões no ar para o longo percurso de ida e volta.
Há um ano, os Estados Unidos também atacaram posições houthis porque o grupo estava disparando contra navios no Mar Vermelho. Depois de gastar cerca de 7 bilhões de dólares em aviação e munição sem conseguir derrotá-los, o presidente Donald Trump proclamou uma “grande vitória” — e os houthis também. Um frágil cessar-fogo passou então a vigorar.
Durante essa trégua, Israel se aproximou da Somalilândia, território que declarou independência da Somália em 1991. Israel foi o primeiro país a reconhecer o novo Estado. Nem a ONU o reconhece oficialmente, embora tenha governo próprio, moeda e forças armadas.
Os israelenses ganharam assim uma base potencial para atacar os houthis, a cerca de 640 quilômetros de Sanaa. O Iêmen fica do outro lado do Golfo de Áden e não mais na entrada do Mar Vermelho, diante do Djibouti, a cerca de 2.200 quilômetros. Essa nova posição estratégica pode funcionar como fator de dissuasão para os houthis entrarem na guerra, na qual pagariam um preço alto e teriam pouco a ganhar.
Uma antiga oficial do Mossad, Sima Shine, afirma que os houthis agem com grande autonomia e sabem que o Irã que sobreviver à guerra provavelmente não sairá mais forte.
“O objetivo final deles é controlar o Iêmen, ou pelo menos ocupar um lugar central em sua liderança. Além disso, eles já foram atingidos pelas forças armadas israelenses durante a guerra de Gaza e sabem que Israel aprimorou suas capacidades desde então. Juntamente com os Estados Unidos, existe um poderio militar significativo na região que poderia prejudicá-los seriamente. Na minha opinião, essa é uma consideração fundamental.”
O ex-chefe da Inteligência Militar israelense Danny Citrinowicz tem outra interpretação, também citada pelo Ynetnews:
“Não sabemos o que o Irã quer dos houthis neste momento. Mas existem duas possibilidades: ou quer que eles entrem agora na guerra, ou prefere mantê-los para mais tarde, caso o conflito se prolongue.”
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.





