Eduardo Bolsonaro, Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro: os bons companheiros. (Reproduções)


Conversas reveladas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — dono do Banco Master, atualmente preso sob a acusação de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras — expõem uma relação mais próxima e complexa do que o parlamentar vinha admitindo publicamente. O caso lança incertezas sobre a pré-candidatura do político de extrema direita à Presidência da República.

As mensagens, divulgadas originalmente pelo site The Intercept Brasil na quarta-feira (13/05), indicam que o senador negociou repasses milionários em meio ao avanço das investigações da Polícia Federal sobre o caso Master. Segundo o congressista, os recursos seriam destinados ao financiamento de uma cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O material impresso e em áudio, cuja veracidade foi confirmada por fontes ligadas ao caso e pelo próprio parlamentar, contesta as versões anteriores apresentadas por Flávio Bolsonaro e amplia o alcance político de um escândalo que atinge diferentes esferas do poder.

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De acordo com a reportagem do Intercept, Vorcaro transferiu R$ 61 milhões para a produção do filme Dark Horse entre fevereiro e maio de 2025. O montante integra um repasse total acordado de aproximadamente R$ 134 milhões para o longa-metragem. O valor é considerado excepcionalmente alto para os padrões do cinema brasileiro, o que gerou questionamentos de investigadores se o montante foi integralmente canalizado para a produção cinematográfica.

Sinais trocados e pressões por pagamentos

Os registros telefônicos demonstram que Flávio Bolsonaro manteve contato frequente com Daniel Vorcaro entre setembro e novembro de 2025. Nas comunicações, o senador referiu-se ao empresário como “irmão” e cobrou diretamente o envio de aportes financeiros para Dark Horse.

Em um áudio enviado em setembro, Flávio declarou: “Eu fico sem graça de ficar te cobrando”, ao mesmo tempo em que pressionava pela liberação das verbas.

Poucos dias antes, em 3 de setembro, o Banco Central havia vetado a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB) — uma medida regulatória que indicava fragilidade na situação do grupo financeiro.

Mesmo diante do cenário de crise, os diálogos prosseguiram. Em 8 de setembro, o senador voltou a cobrar pagamentos. Em 30 de setembro, a Polícia Federal instaurou um inquérito formal para investigar as irregularidades envolvendo Vorcaro.

Na última mensagem registrada, datada de 16 de novembro — véspera da segunda prisão de Vorcaro —, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

Horas antes da divulgação do material pelo Intercept, o senador havia se reunido com o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para apresentar suas credenciais como pré-candidato à Presidência. Na saída do encontro, questionado por um repórter do site sobre o financiamento de Vorcaro, Flávio respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. O parlamentar riu, chamou o jornalista de “militante” e retirou-se da entrevista coletiva improvisada. Ao se afastar, declarou que se tratava de “tudo privado”.

Após a publicação dos áudios, o senador modificou seu posicionamento: “Mais do que nunca, é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, afirmou em pronunciamento em vídeo, mantendo a tese de que não houve irregularidade por se tratar de recursos estritamente particulares. “Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet.”

A argumentação de que a ausência de dinheiro público direto exime o caso de irregularidades é classificada como enganosa por analistas e investigadores, pois omite que o rombo fraudulento do Banco Master envolve fundos de previdência e instituições estatais.

Entre as principais perdas identificadas estão R$ 2,6 bilhões do Rioprevidência (fundo de aposentadorias dos servidores do Estado do Rio de Janeiro), R$ 400 milhões investidos pela previdência do Amapá em ativos sem lastro, e ao menos R$ 12,2 bilhões em papéis fraudulentos adquiridos pelo BRB, cujo acionista majoritário é o Governo do Distrito Federal.

Até a revelação dos diálogos, Flávio Bolsonaro negava conhecer o ex-banqueiro. Em março, a Polícia Federal havia apontado que o contato do senador e de outros congressistas constava na agenda telefônica do investigado, no âmbito de uma CPI sobre fraudes no INSS. Na ocasião, o parlamentar afirmou que nunca tivera contato com o dono do Master e que o número de seu telefone celular “não é propriamente um segredo”.

Com a divulgação das mensagens, o senador recuou e passou a relatar que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, “quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. Contudo, registros na rede social X feitos pelo próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2024, faziam menção a reportagens sobre as investigações contra o Banco Master, confrontando a cronologia apresentada.

Argumento de confidencialidade e contexto político

Ao admitir a relação comercial com Vorcaro, Flávio Bolsonaro alegou a existência de uma cláusula de confidencialidade no contrato firmado entre o ex-banqueiro e a produtora do filme. “Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade”, justificou em entrevista à GloboNews.

O senador sustentou que a operação não configurava doação ou favorecimento político, mas sim um investimento comercial com expectativa de retorno financeiro. “Não é banqueiro enrolado, é investidor de filme”, declarou sobre como via Vorcaro na época do contato inicial.

Flávio alegou ainda que a equipe da produção enfrentava severas dificuldades para captar recursos no mercado brasileiro, atribuindo o cenário a uma suposta perseguição da Polícia Federal contra opositores políticos durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A obra Dark Horse (termo em inglês utilizado para designar um competidor azarão que surpreende) é dirigida pelo cineasta americano Cyrus Nowrasteh, conhecido por dramas de temática religiosa e política, como O Apedrejamento de Soraya M. (2008) e O Jovem Messias (2016).

Definido por Flávio Bolsonaro como uma “mega produção hollywoodiana”, o longa-metragem retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro, desde o atentado sofrido em 2018 até a eleição presidencial. O papel principal é interpretado pelo ator americano Jim Caviezel, célebre por protagonizar A Paixão de Cristo (2004).

O projeto é coordenado por figuras do círculo próximo ao bolsonarismo. O ator e deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário especial de Cultura, assina o roteiro e a produção. Inicialmente, Frias declarou que “não há um único centavo” de Vorcaro no filme. Posteriormente, alinhou seu discurso ao de Flávio Bolsonaro, afirmando que “não haveria problema algum” no aporte de Vorcaro, por se tratar de uma relação estritamente “privada”.

A produtora responsável pelo longa, Go Up Entertainment, também negou publicamente ter recebido repasses do ex-banqueiro. A afirmação diverge dos registros financeiros mapeados pela investigação, que apontam transferências de pelo menos R$ 61 milhões.

O orçamento total estimado em R$ 134 milhões destoa dos padrões da indústria audiovisual brasileira, gerando suspeitas de que a estrutura da produção pudesse ocultar o trânsito de capitais para outros fins. Para efeito de comparação com produções de grande porte recentes, o longa O Agente Secreto (2025) teve custo estimado em R$ 28 milhões, enquanto Ainda Estou Aqui (2024), um dos maiores investimentos recentes do cinema nacional, custou R$ 45 milhões.

Ramificações no exterior e o entorno político

Uma das linhas de apuração da Polícia Federal foca no suposto uso desses recursos para custear despesas correntes de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão de Flávio, nos Estados Unidos, país onde o ex-deputado reside desde fevereiro de 2025.

A PF identificou transferências bancárias da empresa Entre Investimentos e Participações — controlada por Daniel Vorcaro — para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no estado do Texas. O fundo tem como representante legal Paulo Calixto, que atua como advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro refutou as suspeitas de que tenha se beneficiado do dinheiro. Em suas redes sociais, classificou a hipótese como “tosca” e um “assassinato de reputação”. “Meu status migratório não permitiria [receber esses recursos]. Se isso tivesse acontecido, o próprio governo americano me puniria”, argumentou.

Flávio Bolsonaro também negou o desvio de finalidade dos recursos, embora tenha confirmado que os valores transitaram pelo fundo texano. De acordo com o senador, o capital foi integralmente aplicado na produção do filme e Calixto gerenciava o fundo por ser uma pessoa de sua “confiança”.

Embora Flávio tente se distanciar do escândalo — chegando a afirmar em conversas de bastidores que “o Banco Master é do Lula” —, as conexões com Vorcaro estendem-se por aliados importantes do grupo político da família.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil e presidente do Progressistas, que vinha sendo cotado para compor uma chapa como vice de Flávio Bolsonaro, foi alvo de uma operação da Polícia Federal. A linha de investigação apura se o parlamentar recebeu vantagens indevidas para legislar em benefício da instituição financeira.

Em 2024, Nogueira apresentou um texto legislativo que ficou conhecido nos bastidores como a “emenda Master”. A proposta visava ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o teto de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o mecanismo que protege correntistas e investidores em caso de falência bancária.

A medida atenderia diretamente a estratégia de negócios do Banco Master, que captava clientes no mercado oferecendo taxas de rentabilidade agressivas amparadas na segurança do fundo de garantia. Conforme os relatórios da Polícia Federal, o texto final da emenda foi redigido por assessores técnicos do próprio banco e protocolado no Senado por Nogueira praticamente sem emendas ou alterações.

Em mensagens interceptadas pela PF, Vorcaro comemorou o andamento do processo, afirmando que o texto final refletia exatamente o modelo enviado por sua equipe. Ciro Nogueira contesta ter reproduzido a versão do banco de forma integral. O senador nega qualquer irregularidade e sustenta que a proposta possuía caráter estritamente técnico, visando à proteção ampla dos correntistas do sistema financeiro.

Como estratégia de contra-ataque, Flávio Bolsonaro passou a articular a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para apurar as atividades do Banco Master. No entanto, lideranças do Congresso demonstram ceticismo quanto à viabilidade política da CPI, citando a resistência do senador Davi Alcolumbre, cujo nome também é citado em frentes da investigação sobre o esquema de fraudes.