da Redação
07 junho 2026
Edgar Morin, a herança de um filósofo humanista.
Conhecido por sua obra sobre a complexidade, o filósofo que pensou o século XX manteve sua lucidez profética até os últimos dias, marcados por duras críticas à violência em Gaza e pela defesa da Terra-Pátria.
Um dos mais respeitados e lidos intelectuais franceses, doutor honoris causa de 40 universidades do mundo, pensador da complexidade e do saber transdisciplinar e humanista, Edgar Morin rejeitava toda forma de espírito clânico, qualquer nacionalismo, toda e qualquer xenofobia. Costumava dizer que seu espaço era o mundo, todo ser humano era seu igual. Por isso, sentia-se livre e cidadão da Terra-Pátria, que via ameaçada pela ação predadora do homem. No seu engajamento pela biodiversidade, ele afirmava que “é o poder esmagador do dinheiro que está na origem da degradação do meio ambiente”.
Sociólogo do tempo presente, o filósofo humanista morreu na França dia 29 de maio, aos 104 anos. David-Simon Edgar Nahoum nasceu em Paris dia 8 de julho de 1921 de pais judeus originários de Salônica (hoje Tessalônica, Grécia), que haviam imigrado para a França durante a Primeira Guerra Mundial.

Morin foi um sutil analista dos novos paradigmas científicos nos seis tomos da obra “La Méthode” (O método) (Seuil, 1977-2004), onde expõe seu pensamento da “complexidade” e analisa as dinâmicas históricas. “O método parte da constatação de que a concórdia e a discórdia são pai e mãe de todas as coisas, que no mundo físico como na vida e na história humana há conflito entre as forças de união e de destruição, entre Eros e Tênatos. Eu defendo Eros, isto é, o amor”, resumia.
Quando ele completou 100 anos, fiz um texto para a “Carta Capital” comentando o livro que ele publicou para marcar a data, “Lições de um século de vida”. A impressionante lucidez do intelectual se manteve até um mês antes de sua morte, quando deu uma excelente entrevista ao jornal “Le Monde”.
Hiroshima interior
Sua vida foi um milagre. Luna, sua mãe, cardíaca, teve um parto difícil e o filho demorou a respirar ao nascer. A mãe adorada morreu quando ele tinha apenas 10 anos e essa ausência foi uma presença permanente em toda sua longa vida. Ele definiu a morte da mãe como uma “Hiroshima interior”.
Edgar Morin escreveu mais de 100 livros que abordaram diversos campos do saber, do cinema à filosofia, passando pela política e sociologia. O primeiro foi “Ano zero da Alemanha” (1946), escrito depois de dirigir o bureau de propaganda do governo militar da zona francesa de Baden-Baden. Nesse ensaio, ele recusa os clichês sobre a má natureza germânica e tenta compreender como a nação mais culta da Europa, pátria de Goethe e de Beethoven, foi capaz de engendrar a barbárie nazista.
Política
Em “Lições de um século de vida” ele escreve: “Sou um francês de origem sefardita, parcialmente italiano e espanhol, amplamente mediterrâneo, europeu cultural, cidadão do mundo, filho da Terra-Pátria. Tudo isso ao mesmo tempo? Não, depende das circunstâncias e dos momentos, nos quais uma ou outra dessas identidades predomina”.
E continuava: “Cada um de nós tem a identidade de sua família, de sua aldeia ou de sua cidade, de sua província ou etnia, de seu país, enfim de seu continente. Cada um de nós tem uma identidade complexa, una e plural”.
Sempre engajado nas lutas dos oprimidos, Morin apoiou publicamente, em 2013, o chefe Raoni em seu combate contra a barragem de Belo Monte. Com intelectuais, juristas e políticos, o filósofo participou do lançamento de um “Tribunal moral para os crimes contra a natureza e o futuro da humanidade” durante a conferência Rio+20.
Edgar Morin foi um intelectual star na América Latina. “Talvez porque a mestiçagem cultural favorece uma abertura de espírito”, tentava explicar. Hoje é difícil imaginar que, antes de se tornar uma unanimidade também na França, ele era esnobado nos meios acadêmicos, o que levou-o a dizer: “Filósofos, sociólogos, cientistas resmungam, vociferam, quando se fala meu nome e a alergia que lhes inspiro os afasta. Fui cerca de trinta anos solitário, marginal, fora de moda, enquanto reinavam o sartrismo, althusserismo, lacanismo, foucaultismo, deleuzismo, sociologismo, marxismo, estruturalismo”.
Codinome Morin
Na identidade de Edgar Morin, a vertente política sempre foi importante. Morin foi o codinome escolhido quando, aos 20 anos, entrou na Resistência para libertar a França da ocupação nazista. Ele pegou em armas, depois de ter militado na adolescência pelo pacifismo contra os tambores de guerra que se ouviam na Europa já no final dos anos 1930.
Ao revisitar os cem anos passados, Morin não se colocava na posição de sábio que dá lições de vida. Ao contrário, fazia um balanço de seus enganos: a militância pacifista, quando a Alemanha começava a preparar a guerra, e a militância comunista, que depois o levou à oposição ao stalinismo. Um de seus artigos críticos, publicado em 1951, foi o estopim para sua exclusão do Partido Comunista Francês. Continuou socialista, mas se afastou da ortodoxia e da rigidez que dominavam o pensamento comunista.
Tive o prazer de entrevistar Edgar Morin quatro vezes, duas das quais para a “Carta Capital”. Antes, havia traduzido, em 1996, com Clarisse Meireles, sua autobiografia, “Meus demônios” (Mes démons). A um interlocutor que telefona enquanto o entrevisto, em 2012, para dizer que deseja lançar sua candidatura à Academia Francesa, Morin responde que a instituição não faz parte de suas fantasias.
Profeticamente, Edgar Morin me disse, em entrevista de 2004, comentando a invasão do Iraque:
“Os Estados Unidos querem levar o mundo ocidental a esse confronto e dessa forma legitimar a onipotência americana de intervir em qualquer lugar, de espalhar sua hegemonia pelo mundo e, se for preciso, utilizar suas pequenas bombas atômicas de modelos recentes, que fazem pequenas Hiroshimas. Os únicos lugares que eles não controlarão totalmente são a China, a Índia e a Rússia.”
Processo por antissemitismo
Em 2002, num artigo no “Le Monde” intitulado “Israël-Palestine : le cancer” (“Israel-Palestina, o câncer”, coassinado por Sami Naïr e Danièle Sallenave), Edgar Morin tecia considerações sobre a guerra colonial que gangrena a paz da região.
O texto dizia: “Israel vê seu terrorismo de Estado contra os civis palestinos como autodefesa e vê terrorismo na resistência palestina. O Ocidente e a mídia falam de guerra israelense-palestina, mas essa falsa simetria camufla a desproporção de meios, a desproporção de mortos, a guerra de tanques, helicópteros e mísseis contra fuzis e kalashnikovs; a falsa simetria mascara a total desigualdade na relação de forças e mascara a evidência simples: esse conflito opõe ocupantes que ampliam a ocupação e ocupados que ampliam a resistência. A falsa simetria oculta a evidência de que o direito e a justiça estão do lado dos oprimidos. A falsa simetria coloca os dois campos no mesmo plano, enquanto um faz a guerra e o outro não tem meios de fazê-la e opõe atos esporádicos de resistência e terrorismo.”
Morin constatava que “as vítimas palestinas eram quinze a vinte vezes mais numerosas que as vítimas israelenses”. E perguntava: “A piedade deve ser exclusivamente reservada a umas e não às outras?”
Acusado de ser “antijudeu”, o judeu Edgar Morin foi perseguido nos tribunais franceses, num processo que durou dois anos e ao fim do qual foi absolvido.
Os parágrafos que motivaram o processo foram:
“Tem-se dificuldade em imaginar que uma nação de fugitivos originários do povo mais longamente perseguido na história da humanidade, que suportou as piores humilhações e o pior desprezo, seja capaz de se transformar em duas gerações num povo dominador e arrogante – com exceção de uma admirável minoria – num povo que despreza e tem prazer em humilhar”.
“Os judeus de Israel, descendentes das vítimas de um apartheid chamado gueto, guetizam os palestinos. Os judeus que foram humilhados, desprezados, perseguidos, humilham, desprezam, perseguem os palestinos.
Os judeus que foram vítimas de uma ordem impiedosa impõem a ordem impiedosa deles aos palestinos. Os judeus vítimas da desumanidade demonstram uma terrível desumanidade.”
“Esta lógica do desprezo e da humilhação não é característica dos israelenses, ela é característica de todas as ocupações em que o conquistador se acha superior diante de um povo de sub-humanos. E logo que aparece um sinal ou movimento de revolta, o dominante se revela sem nenhuma piedade.”
Posições firmes na defesa do Direito Internacional
O texto era profético ao dizer que populações de judeus e muçulmanos que coexistiram até então iriam ser afetadas pela “dupla intoxicação antijudaica e judeocêntrica”.
Em entrevista que me concedeu em Paris durante o seu processo, Morin disse: “Qualquer crítica a Israel é acusada de antissemitismo. Foi por isso que publiquei em março um artigo no “Le Monde”, ‘Antissemitismo, antijudaísmo, anti-israelismo’, para deixar bem claras as coisas. Eles espalham o mito do retorno do velho antissemitismo europeu, o que é absolutamente ilusório, com o mesmo objetivo de desviar a atenção, porque o crescimento do sentimento antijudaico nos jovens de origem árabe é uma consequência da cruel repressão israelense sobre o povo palestino.”
Alain Touraine, Jean Baudrillard, Régis Debray, Federico Mayor, Mário Soares, Paul Ricoeur, Gianni Vattimo, Pierre Vidal-Naquet e Paul Virilio foram alguns dos mais de 100 intelectuais que assinaram a “Declaração em favor de Edgar Morin”, de solidariedade ao grande intelectual francês de origem judaica, “a quem querem negar o direito de criticar Israel”.
No final do texto, os signatários homenageavam Morin que “sempre se opôs a todas as formas de exclusão do outro e, por suas posições, serve à causa da paz e não à guerra”.
A “Declaração em favor de Edgar Morin” dizia, ainda, que “as críticas que Edgar Morin fez à política de Israel, partilhadas por um grande número de europeus, são de natureza humanista”.
Política
“Penso que não se deve singularizar o destino dos judeus e isolá-los de todos os outros perseguidos, enquanto que, ao mesmo tempo, houve a mesma tentativa de genocídio dos ciganos.
Houve também a abominável escravidão dos negros africanos, o genocídio dos índios da América. E houve também o gulag na União Soviética, que fez 20 milhões de vítimas.”
“Selecionar os judeus como vítimas privilegiadas é ainda uma maneira de querer dar a Israel uma marca de imunologia que o protege de tudo.
Existe a ação muito bem articulada dos organismos comunitários judaicos que tentam criar a solidariedade e a identificação total com Israel. Essas pessoas se voltaram para o judaísmo e se puseram a defender Israel e a justificar tudo. Infelizmente, os intelectuais são máquinas de justificar.
Os intelectuais comunistas stalinistas passavam seu tempo a justificar o injustificável. Ora, os intelectuais ‘comunitaristas’ passam seu tempo a justificar o injustificável e a condenar a compaixão”, conclui o filósofo.
Pela Terra-Pátria
Quanto ao engajamento ecológico do filósofo, ele escreveu dois livros para despertar a consciência planetária da humanidade que vive uma comunidade de destinos: “Terre-Patrie”, escrito em 1993 com Anne-Brigitte Kern, e “Ano I da era ecológica: a Terra depende do homem que depende da Terra”, em 2007, um diálogo com o ecologista Nicolas Hulot.
Aos 30 anos, Edgar Morin escreveu o livro “L’homme et la mort” (O homem e a morte, editora Imago), no qual ele trata do maior mistério da humanidade: a finitude e as diversas formas de enfrentá-la em todos os povos e épocas. O prefácio, escrito pelo autor, cita La Rochefoucauld: “Nem o sol nem a morte podem ser olhados de frente”.
Edgar Morin comenta: “De lá para cá, os astrônomos com os artifícios infinitos de sua ciência – de toda ciência – pesaram o sol, calcularam sua idade, anunciaram seu fim. Mas a ciência continuou como que intimidada e trêmula diante do outro sol, a morte.”
Num belo trecho de seu livro de balanço de um século, Morin escreve: “Uma das grandes lições da minha vida é a de parar de crer na perenidade do presente, na continuidade do devir, na previsibilidade do futuro.”
Ele lembra “o imprevisto da crise de 1929, que devastou o mundo e coproduziu o nazismo e a guerra, o imprevisto da ascensão de Hitler ao poder, assim como da guerra da Espanha, Vichy, da guerra da Argélia, da revelação por Khrushchev dos crimes de Stalin, da dissolução da URSS, do World Trade Center, etc. A história humana é relativamente inteligível a posteriori, mas sempre imprevisível a priori“.
Sobre a velhice, Morin escreveu: “A velhice é como um degrau, uma escada que se sobe e não uma escada que se desce na direção do túmulo. É uma escada que se sobe e na qual cada degrau tem mais valor, levando-se em conta os degraus já percorridos. A experiência dá mais valor ao degrau seguinte. O envelhecimento é, pois, uma busca, uma mudança permanente”.
Na vertente do engajamento político, Morin assinou, em 2015, com outras personalidades, uma petição solicitando ao presidente François Hollande que a França desse asilo a Edward Snowden e Julian Assange. Como era de se esperar, Hollande não teve a coragem de enfrentar o Império, que ficou nu diante das denúncias de Snowden e Assange.
Última entrevista ao Le Monde
Na última entrevista, de abril de 2026, uma de suas preocupações era o esmagamento de Gaza pelo exército de Israel, “uma carnificina”, como ele qualificou. Denunciar a violência da resposta israelense ao atentado terrorista de 7 de outubro de 2023 foi um de seus últimos engajamentos. A guerra assimétrica que se desenrolou em Gaza foi um tormento para o intelectual judeu próximo das posições do filósofo Martin Buber (1878-1965) ou do historiador Shlomo Sand, que o levou a escrever sobre o conflito “Y a-t-il des leçons de l’Histoire” (Denoël, 2025): “Não basta ter sido perseguido para não se tornar perseguidor”.
“A ideia de povo eleito é totalmente ausente para mim”, escreveu Morin. O que não o impediu de partir em busca de suas origens sefarditas no livro “Vidal e os seus” (Vidal et les siens, Seuil, 1989).
No final desse livro “sobre e para” seu pai, falecido em 1984, ele se sentiu “feliz de encontrar no século salônico de suas três gerações anteriores, não a sinagoga, mas uma laicidade formada no grão-ducado de Toscana, mantida e estendida a Salônica por seus ancestrais livorneses”. Assim, seu “retorno de piedade às fontes familiares” o tornou “definitivamente livre em relação ao judaísmo”, ele escreve.
Ao “Le Monde”, ele disse, um mês antes de sua morte: “O repugnante regime dos mulás sofreu bombardeios repugnantes de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Mas é o povo iraniano que sofre esse martírio. Todo o Oriente Médio está passando sob domínio israelo-americano, sobretudo porque o pro-israelismo é um fundamento do trumpismo. Um processo catastrófico está em curso, mesmo se Trump e Netanyahu não sejam eternos. Atualmente, não há nenhuma chance de salvação, só podemos testemunhar nossa impotência. A única esperança está no improvável. Resistamos.”
À pergunta se com seu programa nuclear o regime iraniano não seria uma ameaça para Israel, Morin responde: “O Irã e Israel são uma ameaça recíproca”.
E como o paradigma da complexidade lhe permitia analisar o conflito Israel-Palestina hoje?
Ele respondeu: “Contextualizando-o antes de tudo. Considerando os séculos de perseguição religiosa ou racial aos judeus. Considerando que, apesar de tão poderoso, Israel se encontra num ambiente potencialmente hostil, que sua segurança não é garantida para o futuro e que o país busca essa segurança no poder militar e na extensão territorial. Considerando o desaparecimento da esquerda israelense e a dominação política dos reacionários laicos e religiosos que não podem conceber o que concebeu Yitzhak Rabin: a existência de dois Estados.”

Política
“Considerando a tragédia dos árabes palestinos expulsos em parte de suas terras e refugiados em campos, e o prosseguimento da colonização israelense da Cisjordânia, tendo como tendência a eliminação, muito além do simples domínio. Considerando que o massacre de 1.221 israelenses pelo Hamas no 7 de outubro de 2023, depois a carnificina de 70 mil habitantes de Gaza pelo exército israelense só fizeram agravar a situação.
Considerando o contexto geopolítico no qual Israel tornou-se a vanguarda e o bastião do Ocidente num mundo árabe no qual as populações lhe são hostis e no qual os incidentes militares correm o risco, a cada vez, de degenerar em guerra. Pensando que o direito à existência de Israel e o direito de nascimento de uma nação palestina se impõem um ao outro eticamente e politicamente. Todos esses pontos constituem pressupostos preliminares que tentei desenvolver no livro “Le monde moderne et la condition juive” (Seuil, 2006).”
*Leneide Duarte-Plon é jornalista internacional. Co-autora, com Clarisse Meireles, de Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou A tortura como arma de guerra – Da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado. Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional. A autora escreveu com Leila Duarte o livro “O Apocalipse e a volta do Messias” (Ed. Mauad, 1999), um estudo sobre o livro do Apocalipse.
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