Gudryan Neufert*
Cássio foi às lágrimas. O maior goleiro da história do Corinthians chorou após uma vitória do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro. Ele havia sido o melhor em campo, com defesas impressionantes. Então, por que se emocionou na entrevista pós-jogo? Porque vinha de uma sequência negativa, marcada por falhas dolorosas e duras críticas. Cássio, um gigante no tamanho e no talento, mostrou-se humano — mostrou-se vulnerável.
No esporte, muitas vezes o craque tem sua identidade reduzida ao desempenho: vale quando vence, perde valor quando falha. É uma armadilha cruel. Independentemente da experiência ou da carreira vitoriosa, atletas e técnicos precisam cuidar da saúde mental com o mesmo zelo que dedicam ao preparo físico.
Outro exemplo desta semana: após praticamente fechar acordo para retornar ao Corinthians, o técnico Tite — campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes pelo clube — desistiu do cargo depois de sofrer uma crise de ansiedade na véspera do anúncio oficial. Há quem diga que ele nunca se recuperou totalmente das derrotas nas Copas do Mundo de 2018 e 2022.
Esses episódios reabrem uma pergunta desconfortável: como profissionais tão bem-sucedidos e milionários sofrem com ansiedade e depressão, enquanto muitos na periferia sequer têm o “privilégio” de reconhecer ou tratar essas doenças?
A resposta é simples e urgente: transtornos mentais não escolhem classe social, nem idade. O sofrimento psíquico é uma questão humana, não financeira. Tanto que, na entrevista do desabafo, Cássio soltou: “A gente é ser humano.”
Além da cobrança exterior — do chefe, da equipe, da torcida —, esses profissionais convivem com uma cobrança interna incessante. Foram ensinados desde cedo a buscar a excelência absoluta, a jamais vacilar. Cobram-se além do limite. Vivem em uma concorrência dupla: contra os outros e contra si mesmos. Sem descanso.
Como diz o psiquiatra Irvin Yalom, em Mentiras no Divã:
“Quando vivemos demais sob o olhar do outro, perdemos contato com nossa própria voz interior. A saúde mental depende de nos tornarmos o nosso próprio público.”
Ainda pesa sobre o esporte o tabu da invulnerabilidade. Falar de sofrimento emocional é visto como fraqueza, um estigma difícil de superar em ambientes que cultuam a força e a superação ininterrupta.
Yalom resume bem essa tensão em O Carrasco do Amor:
“A vida não é uma linha reta de vitórias; é um processo de tentativas, erros e aceitação dos próprios limites. A negação das próprias falhas cria mais sofrimento do que a falha em si.”
E os exemplos não param em Cássio e Tite. Michael Phelps, maior medalhista olímpico da história, revelou ter enfrentado depressão severa.
Naomi Osaka, tenista japonesa, interrompeu sua carreira para cuidar da saúde mental. Simone Biles, ginasta americana, abandonou finais olímpicas para proteger seu bem-estar psicológico. Gabriel Medina, tricampeão mundial de surfe, também se afastou para tratar da saúde emocional. E Rebeca Andrade, campeã olímpica da ginástica, já falou abertamente sobre os desafios emocionais que enfrenta para se manter no topo.
Todos eles nos lembram: é preciso normalizar o cuidado com a mente — no esporte e fora dele.
O maior título a ser conquistado talvez seja este: a liberdade de ser humano. Com vitórias, com derrotas, com pausas. E com coragem para pedir ajuda quando necessário.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




