Marcos Strecker


Marcos Strecker*

O recuo no tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras trouxe um grande alívio para toda a economia. A Embraer, a empresa mais tecnológica do Brasil e a mais prejudicada, foi poupada, conforme anunciado na quarta-feira (30). O setor de aço escapou, assim como o de laranja. O café também pode ganhar isenção nesta sexta-feira (1º).

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirma que o tarifaço vai, na verdade, penalizar 35,9% do volume comercializado. Ele lembrou que 45% das exportações foram poupadas e que 20% atingiriam o Brasil no mesmo nível que prejudicaram outros países, ou seja, não geram desvantagem competitiva para o produto nacional. As declarações foram registradas pelo jornal Valor Econômico.

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No front econômico, por enquanto, o prejuízo foi menor do que o esperado. É preciso fazer a ressalva de que os EUA são o principal destino de produtos industrializados nacionais (motores, equipamentos de telecomunicação, medicamentos e equipamentos médicos, além de aviões, que ficaram de fora), o que não acontece com outras nações. Ou seja, não se deve esperar que os manufaturados brasileiros sejam vendidos à China. Na verdade, é a China que está invadindo o mercado brasileiro.

Na superquarta (30), marcada por decisões do Fed (EUA) e do Banco Central do Brasil, o resultado foi o esperado: as duas autoridades monetárias sinalizaram cautela com a inflação e mantiveram os juros em patamares elevados, guardadas as devidas proporções (a Selic continua sendo uma aberração, uma das taxas mais altas do mundo).

Apesar de a inflação ter dado sinais mais fortes nos EUA, com o índice de gastos com consumo pessoal (PCE) cravando 2,6%, os efeitos previstos das tarifas de Trump — as maiores em um século — ainda não chegaram de fato ao consumidor americano. Lá, a taxa de desemprego continua muito baixa, 4,1%. O PIB (anualizado) subiu 3% no segundo trimestre, revertendo a queda do primeiro trimestre. Mesmo com a popularidade em declínio, Trump ainda colhe dividendos na economia.

No Brasil, o imbróglio tarifário, paradoxalmente, pode favorecer o presidente Lula, ainda que alguns setores sejam penalizados, como frutas, pescados e o agronegócio em geral. Primeiro, porque esses itens podem ser redirecionados e abastecer o mercado nacional, atenuando a pressão sobre os preços. Reduzir a inflação certamente pode ajudar Lula nas eleições do próximo ano.

Além disso — e mais importante — a injustificada (e ilegal, como as cortes nos EUA julgariam se não estivessem curvadas diante do republicano) medida de Trump contra os produtos brasileiros, juntamente com a punição a ministros do STF, isolou o bolsonarismo radical e fortaleceu Lula.

O petista virou novamente uma referência internacional (como mostraram suas recentes entrevistas ao New York Times e à CNN) e tem tudo para atrair o centro moderado na defesa da soberania e dos interesses nacionais. E os dados macroeconômicos continuam favoráveis: a taxa de desemprego no segundo trimestre foi de 5,8%, segundo o IBGE — o menor patamar já registrado na série histórica.

Mais do que contar com a sorte, Lula tem agido com equilíbrio e jogo de cintura, algo que não vinha demonstrando neste terceiro mandato. Evitar críticas ideológicas, adiar respostas retaliatórias e colocar Alckmin no comando das negociações contribuíram para reaproximar o presidente do setor produtivo, gerando até certa simpatia no mercado financeiro, onde sua campanha de reeleição parecia uma causa perdida.

Mas, como nos EUA, essa é a imagem da fotografia — e não a impressão que o espectador/eleitor terá após assistir ao filme completo. Com os desequilíbrios macroeconômicos persistentes, para os quais o petista não mostra nenhuma preocupação, o vento pode virar. A dívida pública atingiu 76,6% do PIB em junho, um valor maior do que o esperado. Os gastos públicos sobem de forma insustentável, ainda que Fernando Haddad continue defendendo seu arcabouço fiscal.

Nos EUA, assim como no Brasil, a economia real ainda não sofreu os resultados de políticas populistas e irresponsáveis. Lá, dificilmente Trump vai reverter seu curso na economia, pois isso significaria abandonar a plataforma radical pela qual foi eleito. Aqui, Lula tem mostrado mais serenidade e astúcia ao lidar com a incerteza. Essa nova fase política poderia também se refletir num ajuste da política econômica. Mas isso talvez seja esperar demais de alguém que já disse não acreditar nas virtudes da austeridade fiscal…

*Marcos Strecker é jornalista