Moisés Rabinovici


Moisés Rabinovici*

A 1.814 quilômetros de Teerã, em Beirute, a guerra contra um aliado do Irã, o Hezbollah, já tirou 700 mil libaneses de suas casas e matou pelo menos 570 pessoas. Mas produziu também um fato surpreendente, inesperado e histórico: um apelo a negociações diretas de paz entre Líbano e Israel.

O governo israelense já tentou impor um acordo de paz ao final da invasão de 1982, que cercou Beirute. O presidente seria o líder maronita Bashir Gemayel, morto em um atentado na sede de seu partido, o Kataeb, antes de tomar posse. O irmão dele, Amin Gemayel, assumiu a presidência. Em seguida vieram os massacres de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila — e a perspectiva de paz se esvaneceu.

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Agora, Israel respondeu que “é tarde demais”, segundo fontes citadas pela imprensa. O foco israelense voltou a ser o combate ao Hezbollah (Partido de Deus), que disparou mísseis contra o norte de Israel em solidariedade ao Irã.

Bierute atacada por mísseis israelenses: cenário de horror. (Reprodução: TV)

O inédito apelo libanês à paz foi enviado também ao governo americano. O representante especial da Casa Branca no Líbano, Tom Barrack, recebeu a proposta com frieza, lembrando que os EUA ainda esperam medidas concretas para desarmar o Hezbollah, como prevê o acordo de cessar-fogo firmado ao final de dois anos de guerra em Gaza.

O Exército libanês, mais fraco que o Hezbollah — armado e financiado pelo Irã — não conseguiu impor sua soberania no sul do país, onde as violações do cessar-fogo se tornaram quase diárias.

O Hezbollah, como a OLP nos anos 1970, acabou levando o Líbano a sofrer as retaliações de seus ataques contra Israel. O presidente libanês, Joseph Aoun, tentou dar um basta — mas não foi respeitado.

Há vários dias aviões israelenses bombardeiam redutos do grupo ao sul de Beirute. Hoje, atingiram também suas instituições financeiras. Ao mesmo tempo, tropas israelenses, com infantaria e tanques, avançaram no sul do Líbano.

A proposta “tardia” do presidente Aoun tem quatro cláusulas:

Cessar-fogo completo, com a interrupção de todos os ataques israelenses por terra, mar e ar.
Acelerar o fornecimento de apoio logístico ao Exército libanês.
Forças libanesas assumiriam imediatamente o controle das áreas de tensão e confiscariam armas e arsenais do Hezbollah.

Simultaneamente, Israel e Líbano iniciariam negociações diretas, sob auspícios internacionais, para implementar todas as cláusulas da proposta.

A capital do Líbano está sendo destruída por ataques de Israel. (Reprodução: TV)

O jornal Nidaa al-Watan informou que os encontros entre delegações libanesa e israelense poderiam ocorrer em Chipre, França ou Washington. A proposta teria a bênção do presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri — e poderia servir de arcabouço para um tratado de paz entre os dois países.

O Conselho de Segurança da ONU se reunirá amanhã, quarta-feira, a pedido da França e de vários países europeus, para tentar estancar a escalada militar de Israel no Líbano. O chanceler francês pediu ao Hezbollah que “encerre suas operações e entregue suas armas”, e a Israel que “evite qualquer intervenção de longo prazo no território libanês”.

No final do dia, sirenes de ataque aéreo voltaram a soar na cidade israelense de Kiryat Shmona, perto da fronteira. Israel ordenou também a evacuação das cidades libanesas de Tiro e Sidon.

Alguns obuses disparados pelo Hezbollah caíram na Síria, na região de Serghaya, perto de Damasco. O Exército sírio advertiu que “não tolerará nenhuma agressão ao seu território”.

*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.