Marcos Strecker


Marcos Strecker*

A medida punitiva de Donald Trump contra o Brasil tornou-se o evento político mais significativo do terceiro mandato do presidente Lula, com potencial para alterar a agenda política doméstica e impactar fortemente a economia. Apesar de prejudicial em todos os aspectos, a ação não foi inesperada, mas provocada.

Primeiramente, por bolsonaristas que atuam ativamente nos EUA, buscando medidas contra o STF e a favor da anistia do ex-presidente no Congresso. Eduardo Bolsonaro chegou a celebrar publicamente a punição ao Brasil nas redes sociais, o que é notável, considerando que a medida prejudica o país que ele aspirava liderar.

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O segundo catalisador foram as recentes declarações de Lula, que criticou Trump em palco internacional ao defender a substituição do dólar nas transações comerciais durante a cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro. Essa organização tornou-se abertamente anti-americana, agindo como um instrumento da política externa chinesa, antiocidental e composta por regimes autoritários. Adicionalmente, a primeira-dama fez um comentário depreciativo sobre “vira-latas” quando o marido foi questionado sobre a guerra comercial de Trump.

Esse encontro do “Sul Global” ocorreu logo após Lula assumir a liderança rotativa do Mercosul, em Buenos Aires. Lá, ele interferiu explicitamente em assuntos internos da Argentina ao visitar a ex-presidente Cristina Kirchner, em prisão domiciliar, e se recusar a encontrar o presidente Javier Milei, anfitrião e principal parceiro do bloco. Essa atitude evidenciou a sobreposição da visão ideológica aos interesses do Brasil. Milei, aliado de Trump, desejava desmantelar o Mercosul e firmar um tratado de livre-comércio com os EUA. É provável que ele consiga, favorecendo seu país e adiando indefinidamente o acordo Mercosul-União Europeia, que deveria ser a prioridade máxima da diplomacia brasileira.

Nesse cenário, apenas o discurso populista dos três líderes — e de Jair Bolsonaro — se beneficia. Bolsonaro, que se vê fora das cordas às vésperas de uma possível condenação e prisão pela tentativa de golpe de Estado, dificilmente vencerá essa guerra de narrativas. Pelo contrário, a primeira vítima pode ser seu aliado Tarcísio de Freitas, cuja candidatura presidencial estava ganhando força nos bastidores para enfrentar o petista em 2026. O boné “MAGA” que o governador de São Paulo exibia com orgulho agora serve como propaganda negativa.

Lula é o grande vitorioso

Lula é o grande vencedor dessa escalada. Ele pode defender a soberania nacional contra a absurda ingerência externa, alinhar-se com o STF e se posicionar como defensor da independência das instituições e da democracia. Isso representa um grande alívio para o presidente, como evidenciado por uma recente reportagem da revista britânica The Economist, que apontava a diminuição da imagem de Lula no exterior (pelo fim de sua influência) e no plano interno (baixa popularidade). O artigo foi difícil de contestar, e o Itamaraty enfrentou dificuldades para isso. O próprio texto da The Economist mencionava que a diplomacia brasileira, nos bastidores, estava em modo de “controle de danos” durante o encontro dos BRICS.

Agora, o presidente ganhou um reforço para sua campanha interna contra a oposição conservadora no Congresso e contra a austeridade fiscal (que ele reforçou no Rio, contradizendo o discurso oficial de Fernando Haddad). Ele deve, assim, intensificar a polarização com o já conhecido bordão “pobres contra ricos/nós contra eles”. Lula já havia antecipado a campanha eleitoral do próximo ano e recebeu uma valiosa ajuda de Trump.

Impactos na economia

Enquanto o populismo ganha, a economia sofre. Os Estados Unidos são o segundo maior importador do Brasil, principalmente de produtos industriais e de maior valor agregado — ao contrário do principal parceiro comercial, a China, que compra basicamente soja, minério de ferro e petróleo.

A Embraer, um orgulho da indústria nacional, já sofreu uma queda nas bolsas e deve ser fortemente penalizada, assim como as siderúrgicas. O agronegócio, que até então demonstrava simpatia pelo bolsonarismo, também será afetado. Exportações de café, laranja, carne e cana-de-açúcar devem cair significativamente. Os primeiros resultados do tarifaço foram vistos no dia seguinte, quinta-feira (10): o dólar, que vinha retornando aos patamares de 2024, voltou a disparar, e o Ibovespa, que celebrava recordes, recuou.

O futuro da política interna

Para confirmar a derrota do bolsonarismo, Lula agora se sente fortalecido para aplicar a lei da reciprocidade de tarifas, recentemente aprovada no Congresso com o apoio da bancada do agro. Dessa forma, ele conseguiu uma aliança com um setor que lhe era hostil. O presidente também ameaça quebrar patentes da indústria farmacêutica americana — uma medida que pode ser contraproducente a longo prazo, mas é bastante popular.

Em resumo, Bolsonaro tem tudo para naufragar ao atrair uma medida de lesa-pátria, e Lula pode ressuscitar nas pesquisas. Com um bônus para o petista: se a economia sair dos trilhos de vez, haverá mais uma desculpa para a inconsistência fiscal e a irresponsabilidade com as contas públicas do governo — a culpa será de Trump e de seu aliado brasileiro.

*Marcos Strecker é jornalista