Rasool Hashemi, com a filha Kawsar e o filho Sayed, falam por vídeochamada com Sayed Anas; a família luta para levar a criança para os EUA. (Redes Sociais)


“Sempre que estamos tão perto, algo acontece. Agora, já nem sabemos.” A frase de Sayed Rasool Hashemi resume o desespero de um pai que, após colaborar com os militares dos Estados Unidos durante a guerra no Afeganistão, vive hoje em Beaverton, Oregon, com a esposa e dois filhos — mas separado do mais novo, Sayed Anas, retido há três anos fora do país.

A história, revelada pelo jornal norte-americano The New York Times, expõe a fragilidade dos mecanismos de reassentamento criados para afegãos que trabalharam com Washington e que, após a retirada caótica de Cabul em 2021, ficaram expostos à vingança dos talibãs.

O vazio deixado pela retirada

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Hashemi começou a colaborar com os EUA em 2004, primeiro em pequenos serviços, depois como intérprete. “Eles diziam que cuidariam de nós”, recorda. Mas quando Joe Biden fixou o prazo para a retirada, a família entrou na clandestinidade. O nascimento de Anas em 2022 complicou ainda mais o processo: o bebé não tinha passaporte e não constava nos pedidos de visto.

Enquanto os pais e irmãos conseguiram viajar para os EUA em fevereiro de 2023, o menino ficou para trás. Desde então, a família vive entre entrevistas adiadas, formulários que não funcionam e embaixadas que não respondem.

A política como obstáculo

O bloqueio quase total da imigração afegã imposto por Donald Trump transformou o caso numa metáfora cruel do fim da guerra. Em 2025, a sua administração encerrou o gabinete CARE, criado para agilizar vistos especiais. O congelamento atual de autorizações, justificado por supostas dificuldades de verificação de cidadãos afegãos, deixou milhares em suspenso.

“O sistema parecia uma comédia de erros, mas nada disto é engraçado”, lamenta Brian Torres, amigo da família e voluntário em programas de reassentamento.

Uma infância à distância

Hoje, Anas, de três anos, conhece os pais apenas pela tela do WhatsApp. “Ele vê aviões e pensa que vamos buscá-lo”, conta Hashemi. Enquanto os irmãos prosperam na escola e a mãe tenta aprender inglês, a ausência do filho mais novo corrói o cotidiano da família.

“Ela está doente o tempo todo”, diz o pai sobre a esposa. “Não consegue parar de chorar.”

Entre esperança e incerteza

O advogado da família acredita que exceções previstas na lei poderiam permitir a entrada de Anas. Mas a falta de respostas oficiais mantém o futuro em aberto. “Esta família poderia estar reunida em três meses”, afirma Torres. “Ou poderiam ser mais três anos.”