Marcos Strecker


Marcos Strecker*

A saída espetacular de Elon Musk do governo Donald Trump, com direito a xingamentos e ameaças recíprocas, muda a dinâmica da gestão do republicano. O presidente usou até agora o bilionário como fachada para mostrar que estava enxugando a máquina pública usando um gênio bilionário da tecnologia. Na prática, o sul-africano foi uma isca para a agenda autoritária de Trump. Avançou para desmontar o arcabouço regulatório que garantia a democracia e coibia o sequestro do Estado por interesses privados. A cifra dos cortes do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) não chegou nem perto dos US$ 1 trilhão anunciado pelos próceres do MAGA, mas vai causar efeitos duradouros para enfraquecer a economia e o soft power americanos, além de dizimar o débil Estado de bem-estar social que o país conseguiu construir desde o New Deal.

Agora, Trump vai ter mais dificuldades em convencer a sociedade de que sua legislação esperta para reduzir impostos dos ricos (“big beautiful bill”, ou lei grande e bonita) não é o que Musk resumiu com sarcasmo: “uma abominação nojenta” que vai aumentar a dívida dos EUA em espantosos US$ 2,4 trilhões e frear o crescimento. Musk, evidentemente, não está preocupado com as contas públicas.

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Aparentemente, foi demitido porque já não servia tão bem à estratégia do presidente e não aceitava ser escanteado em decisões que vão afetar seus contratos bilionários com o governo, como a taxação de importações do exterior (que piora a situação da Tesla), a eliminação de subsídios que favorecem os carros elétricos nos EUA e a chefia dos projetos aeroespaciais (seu indicado para a NASA foi chutado por Trump, de forma grosseira, como é de seu feitio).

Politicamente, Trump precisará recalibrar suas bases de apoio, que ainda são enormes. A intimidação que pratica contra os republicanos no Congresso pode garantir a aprovação de sua principal peça legislativa. Mas as acusações de Musk abrem um flanco na “lua de mel” do início do mandato e se seguem ao vexame do “Taco”, apelido jocoso que pegou, indicando que Trump sempre se acovarda após trombetear força em negociações duras. Entre os recuos, o que mais acalmou o mercado nos últimos dias foi a aparente retomada das relações comerciais com a China. Trump falou com Xi Jinping e pavimentou um acordo que tira o presidente do sufoco. O prazo para o acordo com dezenas de países (início de julho) está se esgotando, e dificilmente Trump vai manter suas ameaças originais de tarifas escorchantes de importação.

Apesar do torpedo certeiro do dono do X (ex-Twitter), Trump aproveita um bônus econômico. Mesmo com a queda do PIB no primeiro trimestre (-0,3%), a economia ainda está razoavelmente aquecida, a inflação não disparou (contra todas as previsões) e o desemprego se mantém (os números do mercado de trabalho divulgados na sexta-feira foram positivos e melhores do que o previsto, mesmo com certa desaceleração).

Para o Brasil, a péssima notícia da semana foi o aumento das taxas de importação de aço e alumínio (de 25% para 50%), que atingem especialmente a siderurgia nacional (o país é o segundo maior exportador de aço para os americanos). É um balde de água fria para os negociadores brasileiros, que apostam nas negociações discretas e sonhavam com a volta das cotas setoriais arrancadas de Trump. Na quinta-feira (5/6), o dólar chegou a recuar mais de 1%, para R$ 5,58, atingindo o menor patamar desde outubro de 2024.

A confusão e incerteza que a dupla Trump-Musk conseguiu espalhar pelo planeta ainda não atingiram diretamente o Brasil, por enquanto. Mas a crise interna está contratada. Se Lula não conseguir um acordo com o Centrão, ainda improvável, para resolver a crise fiscal, os bons números da economia brasileira também estão com os dias contados.

*Marcos Strecker é jornalista