No mesmo dia em que a Casa Branca oficializou um novo pacote de sanções financeiras contra Havana, o ex-presidente Donald Trump elevou a temperatura retórica entre Washington e a ilha caribenha. Durante um comício na Flórida, reduto histórico do exílio cubano, Trump afirmou que os Estados Unidos poderiam “assumir” o controle de Cuba “quase imediatamente” após a conclusão das operações militares em curso contra o Irã.
Embora parte do auditório e agências de notícias como a Associated Press tenham interpretado as falas como uma ironia de tom eleitoral, o discurso ocorre em um momento de asfixia econômica sem precedentes para o regime de Miguel Díaz-Canel. “Vamos terminar uma coisa primeiro. Gosto de concluir o trabalho”, declarou Trump, referindo-se ao cenário no Oriente Médio, para em seguida sugerir o envio de um porta-aviões à costa cubana. “Pararemos a 100 jardas da praia e eles dirão: ‘Muito obrigado, nos rendemos’”.
O garrote financeiro
Para além da retórica de palanque, a realidade diplomática se traduz em decretos. A administração norte-americana endureceu nesta sexta-feira o cerco a setores vitais da economia cubana — mineração e energia — e, mais grave, ampliou as punições a bancos estrangeiros que facilitem transações com Havana. Washington justifica a escalada classificando a ilha como uma “ameaça extraordinária” à segurança nacional.
O efeito prático dessas medidas é o agravamento da crise energética que assola o país desde janeiro, quando o bloqueio ao fornecimento de petróleo foi intensificado. O anúncio coincide com as celebrações do Dia do Trabalhador em Cuba, marcadas por protestos oficiais contra o que o chanceler Bruno Rodríguez classificou como “medidas coercitivas unilaterais e abusivas”.
Diplomacia sob tensão
A despeito da agressividade verbal, os canais de comunicação entre o Departamento de Estado e o Ministério das Relações Exteriores de Cuba permanecem, paradoxalmente, ativos. Representantes de ambos os governos mantiveram reuniões técnicas em abril.
Contudo, analistas veem nas falas de Trump uma tentativa de consolidar o apoio da comunidade cubano-americana, utilizando a vulnerabilidade econômica da ilha como ativo político. A menção ao posicionamento de navios de guerra como o USS Abraham Lincoln evoca os períodos mais tensos da Guerra Fria, em um contraste direto com as tentativas de normalização diplomática ensaiadas em anos anteriores.





