da Redação
07 junho 2026
Peru elege hoje nono presidente em dez anos.
Keiko Fujimori e Roberto Sánchez disputam segundo turno em meio a acusações criminais, legado de autoritarismo e crise institucional.
Os peruanos voltam às urnas neste domingo para escolher entre dois candidatos que carregam sobrenomes e alianças pesadas na história recente do país. Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, e Roberto Sánchez, aliado do ex-mandatário Pedro Castillo, disputam o segundo turno em um cenário de fragmentação política, insegurança crescente e descrédito das instituições.
O primeiro turno, realizado em abril, expôs a fragilidade do sistema político. Fujimori obteve 17% dos votos válidos e Sánchez 12%, em uma corrida com 35 candidatos. Juntos, os dois finalistas somaram menos de 18% do eleitorado, o índice mais baixo das últimas décadas. A votação foi marcada por atrasos logísticos e acusações de fraude, embora observadores internacionais tenham afirmado não haver evidências.
A trajetória de Fujimori é marcada por persistência e rejeição. Aos 50 anos, concorre pela quarta vez à Presidência, após derrotas em 2011, 2016 e 2021. Seu pai, que governou o Peru entre 1990 e 2000, foi condenado por crimes contra a humanidade e corrupção, mas também creditado por estabilizar a economia e derrotar o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Keiko defende políticas de “mão dura” e o modelo de mercado vigente, mas enfrenta críticas por ter contribuído para a instabilidade política que levou o país a ter nove presidentes em dez anos.
Do outro lado, Sánchez, psicólogo de 57 anos, construiu sua carreira política em governos locais e como ministro de Comércio Exterior e Turismo de Castillo.
Filho de migrantes andinos, ele se apresenta como representante das regiões periféricas e rurais. Inicialmente defensor de uma nova Constituição e maior intervenção estatal, moderou seu discurso no segundo turno, prometendo estabilidade macroeconômica e incentivo ao investimento privado. Sua campanha, porém, foi abalada por acusações de falsificação de documentos e irregularidades financeiras em seu partido, Juntos pelo Peru. A Justiça aceitou a denúncia dois dias antes da votação, mas, se eleito, Sánchez terá imunidade.
As pesquisas mais recentes mostram uma disputa apertada: levantamento Ipsos/Perú 21 aponta Fujimori com 38% das intenções de voto e Sánchez com 35%, dentro da margem de erro. Cerca de 27% dos eleitores declararam intenção de votar em branco, anular ou permanecem indecisos, reforçando a lógica da escolha pelo “mal menor”.
Governabilidade
Independentemente do resultado, o próximo presidente enfrentará um Congresso bicameral recém-restaurado e altamente fragmentado. O Peru convive há uma década com choques entre Executivo e Legislativo, que resultaram em renúncias, destituições e até tentativas de golpe. Analistas avaliam que Fujimori teria maior governabilidade, já que seu partido controla um terço das cadeiras, enquanto Sánchez precisaria construir alianças frágeis e heterogêneas. A volta do Senado adiciona complexidade ao cenário, exigindo coalizões para qualquer avanço legislativo.
Insegurança
Além da crise política, a insegurança pública é a principal preocupação dos cidadãos. Extorsões, assassinatos por encomenda e mineração ilegal avançam em regiões onde o Estado tem presença limitada. Serviços básicos como saúde e educação também se deterioram, aumentando a frustração social. Segundo a ONG Latinobarómetro, mais de 90% dos peruanos dizem ter “pouca” ou “nenhuma confiança” no governo e no Parlamento.
Impacto regional
No plano externo, especialistas apontam que um governo Sánchez buscaria aproximação com Brasil e México, enquanto Fujimori teria maior afinidade com Estados Unidos e governos conservadores da região. A eleição, portanto, pode redefinir o alinhamento diplomático do Peru em um momento de polarização continental.