Vista geral da Refit em Manguinhos, Rio, e volume de dinheiro apreendido na operação hoje, em São Paulo. (Fotos: Reproduções)


Uma megaoperação da Polícia Federal (PF) e Receita Federal, batizada de “Poço de Lobato”, deflagrada na manhã desta quinta-feira (27) teve o objetivo de desmantelar um sofisticado e bilionário esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro liderado pelo Grupo Refit, antiga refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

A ação, que mobilizou 621 agentes públicos, incluindo promotores e auditores, cumpriu 190 mandados de busca e apreensão em cinco estados (Rio, São Paulo, Minas Gerais, Bahia) e no Distrito Federal, mirando 190 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas ligadas ao conglomerado.

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O esquema: fraude bilionária

O Grupo Refit, comandado pelo empresário Ricardo Magro, é apontado como o maior devedor de ICMS do estado de São Paulo, o segundo maior do Rio de Janeiro, e um dos maiores da União.

Sua dívida total em tributos, segundo dados da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo (MPSP), ultrapassa R$ 26 bilhões com a União e cerca de R$ 9,6 bilhões apenas em ICMS para o estado de São Paulo.

O inquérito revelou que o grupo movimentou mais de R$ 70 bilhões em apenas um ano (desde 2024), logo após uma operação anterior (Carbono Oculto, em agosto de 2025) ter interrompido o esquema anterior.

O modelo de fraude se baseava na criação de uma rede de empresas — incluindo núcleos internacional (com offshores), de tecnologia, jurídico, fintechs e bancos — para ocultar lucros e blindar o patrimônio de uma família de empresários.

A sonegação era praticada em todas as etapas da cadeia de combustíveis:

  • Importação: Os investigados importaram mais de R$ 32 bilhões em combustíveis (nafta, hidrocarbonetos e diesel) entre 2020 e 2025, muitas vezes declarando a gasolina importada falsamente como derivados de petróleo para obter vantagens fiscais.
  • Produção/Distribuição: Fraudes foram constatadas em formuladoras (empresas que misturam produtos para produzir gasolina e diesel), distribuidoras e postos de combustível, com sonegação de valores em todas essas etapas.

O dinheiro sonegado era então “lavado” e aplicado em fundos de investimento, negócios e propriedades para dar aparência de legalidade e dificultar o rastreamento.

A Receita Federal identificou inicialmente 17 fundos, mas depois constatou serem 50 fundos ligados ao grupo, com patrimônio líquido de R$ 8 bilhões bloqueados na operação. Segundo a Receita, “em sua maioria, são fundos fechados com um único cotista, geralmente outro fundo, criando camadas de ocultação.”

Haddad alerta para lavagem feitosa dentro dos EUA

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comentou a operação na portaria do Ministério da Fazenda, na manhã desta quinta-feira (27), classificando o esquema como uma “triangulação internacional gravíssima”.

Haddad afirmou que o crime organizado está remetendo recursos a empresas abertas nos Estados Unidos, especialmente para o estado de Delaware, para lavagem de dinheiro. Ele descreveu o mecanismo:

“Queremos pautar, com os Estados Unidos, conversas sobre crime organizado. Estão abrindo empresas em Delaware (EUA).

Faz um empréstimo para esses fundos, que é a suspeita da Receita de que jamais serão pagos, e voltam em forma de aplicação no Brasil, como se fosse um investimento estrangeiro direto”.

O ministro destacou que a última operação simulada foi de R$ 1,2 bilhão e que o Grupo Refit teria movimentado R$ 70 bilhões em um ano, pedindo uma frente de trabalho com o governo norte-americano para inibir a lavagem de dinheiro em paraísos fiscais e garantir a colaboração internacional para bloquear esses fundos.

Além disso, Haddad revelou que a Receita Federal identificou o contrabando de armas provenientes dos Estados Unidos:

“Armas estão chegando no Brasil de contêineres de lá, vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o (Robinson) Barreirinhas [secretário da Receita Federal em SP] fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres.”

O ministro defendeu que, para impedir que drogas cheguem aos EUA, é fundamental que o governo americano iniba a chegada de armamento pesado ao Brasil, vendo a parceria como “fundamental”.

Tarcísio destaca prejuízo com esquema Refit

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em entrevista coletiva descreveu a ação como “inédita” e “essencial” no combate a devedores persistentes, em coletiva realizada no MPSP (Ministério Público de São Paulo).

Tarcísio quantificou o impacto social da sonegação:

“Para termos ideia, nossa saúde pública teve um incremento de R$ 10 bilhões anuais no custeio… A fraude de R$ 350 milhões por mês desses grupos é um obstáculo direto aos serviços essenciais para a população.”

Ele comparou o valor desviado com a possibilidade de custear a construção de 20 escolas mensalmente ou de um hospital de médio porte por mês.

Haddad, por sua vez, voltou a pressionar o Congresso Nacional pela aprovação da lei do devedor contumaz, que busca asfixiar financeiramente as organizações criminosas que usam a sonegação como modelo de negócios.

O projeto, que define devedores contumazes como contribuintes com dívida injustificada superior a R$ 15 milhões e correspondente a mais de 100% do seu patrimônio, está parado na Câmara dos Deputados desde outubro, aguardando a indicação de um relator.

“Se não asfixiar financeiramente as organizações criminosas, vai ter uma reposição de mão de obra barata na ponta. É o andar de cima que irriga com bilhões as atividades criminosas. É assim que vamos conseguir efetivamente combater o crime”, defendeu Haddad.

Outro lado: Grupo Refit

Procurada, o Grupo Refit não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.

Em setembro, a Refit já havia emitido um comunicado após uma interdição da Agência Nacional de Petróleo (ANP) — motivada por irregularidades como suspeita de declaração falsa na importação e indícios de uso de aditivos não autorizados —, onde refutava as acusações:

“A Refit esclarece que jamais atuou ou opera como empresa de fachada para atividades ilegais e possui histórico comprovado de atividades legítimas no mercado.”

A empresa também afirmou que iria “demonstrar nos autos do processo administrativo da ANP que todas as condicionantes sempre estiveram atendidas, não havendo justificativa razoável para a paralisação total de suas atividades.”

Detalhes da investigação

A operação “Poço de Lobato” foi deflagrada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (Cira-SP) e, apesar da complexidade do esquema, o promotor de Justiça Alexandre Castilho afirmou em entrevista que não foi detectada, até o momento, a presença de atuação de facções criminosas nos moldes tradicionais.

O foco da fraude estaria no “andar de cima” que financia atividades ilícitas com o dinheiro sonegado.

O processo corre sob sigilo, e o nome de nenhuma empresa investigada além da Refit foi divulgado. A investigação visa a recuperação dos ativos e o desmantelamento completo da estrutura financeira que permitiu a movimentação de dezenas de bilhões de reais em fraudes fiscais.